30 de março de 2011

Os Contos de Fada e A Criança de Sentido Indizível

O imaginário exerce, na realidade, o papel de encenador das condições psíquicas [...] (KRISTEVA, 2002).

No texto “A criança de sentido indizível", a filósofa-psicanalista Júlia Kristeva nos apresenta relatos do tratamento de uma criança de três anos – Paul - com dificuldades neurológicas no campo linguístico. A criança não proferia qualquer palavra, não suportava o diálogo entre os pais e recusava a troca de palavras entre o terapeuta e a mãe (p.116). Para Kristeva os retardos na aquisição da linguagem ou dificuldades na aprendizagem das categorias lógicas e gramaticais, quando menores, não afetam o acesso ao simbólico na criança, quando possibilitada a essa uma ampla e intensa utilização do imaginário. Explicando sua colocação, a autora passa a definição do que chama de simbólico e de imaginário.

O simbólico seria o exercício do discurso segundo regras lógicas e gramaticais da interlocução, e o imaginário, aponta a autora, figura a representação de estratégias de identificação, introjeção e projeção, que mobilizam a imagem do corpo, as do ego e as do outro, e que utilizam os processos primários (deslocamento e condensação) (p.113). A partir dessas especificações, a autora acaba por esclarecer em seus conceito de psicologia a função da literatura infantil e suas histórias que, atemporais, como nos casos dos contos de fadas, ainda hoje caem no gosto de toda e qualquer criança.

O processo utilizado, então, pelo terapeuta para ajudar a criança de sentido indizível a lidar com as dificuldades aparentes, parte das histórias infantis, mais especificamente de contos de fadas - histórias que estruturam o sujeito, criando assim as precondições das categorias lingüísticas (KRISTEVA, p.122). A conhecida história de Collodi, a história de Pinóquio , é a primeira que se apresenta, seguida da igualmente famosa Bela Adormecida, antiga lenda oral registrada por Perrault. Assim, os contos são abordados e tratados por Kristeva a partir de sua função primordial - não como mero entretenimento-, tal qual na visão de Cashdan que diz: os contos de fada possuem muitos atrativos, mas transmitir lições não é um deles.

Diferentemente do que se poderia pensar, os contos de fadas não foram escritos para crianças, muito menos para transmitir ensinamentos morais (ao contrário das fábulas de Esopo). Em sua forma original, os textos traziam doses fortes de adultério, incesto, canibalismo e mortes hediondas que eram transmitidas oralmente em praças, festas e reuniões, para um público pra lá de adulto. Aliás, criança na época a qual nos referimos sequer era reconhecida como tal, quiçá protegida por direitos e estatutos como se dá hoje. Não existia o universo infantil, as crianças eram apenas parte da população, eram vistas, e tratadas, como adultos em miniatura. O conceito de criança conforme o compreendido atualmente começou a ser estruturado somente lá pelo início do século XIX, porém as versões infantis de contos de fadas, devidamente expurgadas e suavizadas, apareceram já no século XVII, pelas mãos de Charles Perrault.

Voltando ao texto de Kristeva e atestando a coerência do uso de histórias literárias no auxílio ao desenvolvimento do menino Paul trazemos a concepção de Sheldon Cashdan. O autor-psicólogo afirma, em seu livro “Os 7 pecados capitais nos contos de fadas: como os contos de fadas influenciam nossas vidas”, que os contos de fada seriam psicodramas da infância espelhando lutas reais, e, segue o autor, embora o atrativo inicial de um conto de fada possa estar em sua capacidade de encantar e entreter, seu valor duradouro reside no poder de ajudar as crianças a lidar com os conflitos internos que elas enfrentam no processo de crescimento (CASHDAN, 2000, p.25).

O modo pelo qual os contos de fada resolvem esses conflitos é oferecendo às crianças um palco onde elas podem representar seus conflitos interiores. As crianças, quando ouvem um conto de fada, projetam inconscientemente partes delas mesmas em vários personagens da história, usando-os como repositórios psicológicos para elementos contraditórios do eu. [...] Cada um dos principais contos de fadas é único, no sentido em que trata de uma predisposição falha ou doentia do eu. Logo que passamos do "era uma vez", descobrimos que os contos de fada falam de vaidade, gula, inveja, luxúria, hipocrisia, avareza ou preguiça - os "sete pecados capitais da infância". Embora um determinado conto de fada possa tratar de mais de um "pecado", em geral um deles ocupa o centro da trama.(2000, p.28)

Na história, a criança se projeta momentaneamente nos personagens e penetra no mundo da fantasia, vivenciando um contato mais estreito com seus sentimentos e elaborando seus conflitos e emoções. Desta maneira, ela cresce e se desenvolve. A história funciona como uma ponte entre o real e o imaginário. Como bem o explica Aroeira, "[…] Por meio da história, a criança observa diferentes pontos de vista, vários discursos e registros da língua. Amplia sua percepção de tempo e espaço e o seu vocabulário". Ela desenvolve a reflexão e o espírito crítico, pois a partir da leitura, "[…] Ela pode pensar, duvidar, se perguntar, questionar (1996, p.141). A Literatura Infantil é fonte inesgotável de assuntos para melhor compreender a si e ao mundo, então à criança, como disse Kristeva, devemos possibilitar e facilitar o acesso ao imaginário.
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KRISTEVA, Júlia. As novas doenças da alma. RJ: Rocco, 2002, p. 113-122.
CASHDAN, Sheldon. 'Os 7 pecados capitais nos contos de fadas: como os contos de fadas influenciam nossas vidas'. Rio de Janeiro: Campus, 2000.
AROEIRA, Maria Luísa Campos. Didática de pré-escola: vida e criança: brincar e aprender. São Paulo: FTD, 1996, p. 167.
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Brincadeira de Criança
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A Moça Tecelã - Marina ColasantiLiteratura Infanto-Juvenil: As Viagens de Gulliver - Jonathan Swift


27 de março de 2011

Escritores Criativos e Devaneios - Um Conceito de Literatura


“O escritor escolheu o mundo e especialmente a revelação do homem aos outros homens para que estes adquiram, em face do objecto assim desnudado, toda a sua responsabilidade. Ninguém pode fingir ignorar a lei, porque há um código, e porque a lei é coisa escrita: depois disto, pode infringi-la, mas sabe os riscos que corre. Do mesmo modo, a função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e que ninguém se possa dizer inocente”. (Jean-Paul Sartre)



Freud está tornando-se fihura popular aqui no blog. Abordamos anteriormente o Mal-Estar na Civilização e hoje falaremos de um texto um pouco mais poético  produzido pelo psicanalista - Escritores Criativos e Devaneios.  Antes de adentrarmos nos escritos de Freud, porém, faz-se pertinente uma breve excursão pelo conceito de literatura que, já no primeiro parágrafo, o psicanalista deixa visível  em suas entrelinhas. Aproveitaremos a deixa, com ressalvas à licença poética,  para trazermos essa concepção de Literatura que nos tem guiado em trabalhos e leituras. Modesto, incluindo-se como “leigo”, e curioso, Freud se pergunta:  de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira seu material [...]. Justamente aqui encontramos o nosso mote e nos deteremos por instantes. 

Nós, leigos, sempre sentimos uma intensa curiosidade - como o Cardeal que fez uma idêntica indagação a Ariosto - em saber de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira seu material, e como consegue impressionar-nos com o mesmo e despertar-nos emoções das quais talvez nem nos julgássemos capazes (FREUD).


 O que é literatura? Lajolo, na sua descomplicada narrativa, diz que a pergunta é complexa porque tem várias respostas. E não se tratam de respostas, segue a autora, que vão se aproximando cada vez mais de uma grande verdade, pois dentro de cada tempo, de cada grupo social tem, a literatura, a sua definição (p.25). Ainda que concorde com a simples e acertada colocação de Lajolo, de que a literatura não pode se encerrar em definições, uma vez que, produto humano que é, está em constantes transformações, nós, estudiosos da área de Letras, viemos trabalhando para tornar visível uma concepção de literatura que não só a de atividade transcedentalmente espiritual. A literatura apreendida como produto de inspiração divina, ou como Freud nos deixa subentendido - algo que possa ser bebido nas fontes de hipocrene -, é responsável por algumas  incompreensões acerca dessa arte e de seus estudos enquanto ciência. ( aqui artigo sobre processo criativo) .

Bourdieu, em suas análises sobre o campo literário, busca romper com a concepção de literatura entendida como um bem predominantemente espiritual, produzido pela inspiração de um artista individualmente. A perspectiva de Bourdieu é antes relacional, compreendendo as manifestações literárias a partir de posições ocupadas no interior de um Campo que, com suas leis e regras, determinam a incorporação de um habitus que opera no sentido de tornar invisível certas relações objetivas, conformadoras de práticas que tendem a reproduzir certos esquemas de pensamento. Existe para o autor, um princípio social estruturador das produções humanas, visto que seus produtores estão inseridos em um determinado espaço social (campo) que é estruturado a partir de lógicas, leis e crenças próprias e são constituidores de habitus que, específicos, são reproduzidos nas criações literárias e são estruturantes de tais obras. Aqui respondemos à curiosidade de Freud que se pergunta de onde o escritor retira seu material. Não poderia ser de outro lugar que não o mundo social em que está inserido.

Assim não o fosse, à literatura não seria apregoado o papel social de edificadora do homem, aqui representado na voz de Antonio Candido. O papel social da literatura diz respeito à identificação do leitor e de seu universo vivencial representados na obra literária. Para Candido a literatura é a transfiguração do real, e é nela que estão retratados os sentimentos humanos e as diversas formas de relação do homem com aquilo o que sente. Na literatura está às verdades de uma mesma condição humana, o que possibilita ao homem, ao ver seus costumes retratados, uma reavaliação da postura que assume. Ler é criar consciência do que somos, é examinar o mundo em que vivemos para transformá-lo no mundo em que gostaríamos de viver.

Bakhtin também se ocupou em desmistificar essa concepção “extraterrestre” de literatura, entendida como produto de uma consciência individual, isolada, localizada no reino de “puras ideias” e “formas transcendentes” (FARACO, p.48). O filósofo da linguagem nos alerta  que atrás do texto há sempre um sujeito, uma visão de mundo, um universo de valores com que se interage (idem, p.43). Ainda lembra, de saída, que todos os produtos da criação ideológica são objetos dotados de materialidade, isto é, são parte concreta e totalmente objetiva da realidade prática dos seres humanos (p.48).

Longe poderíamos levar essa discussão, mas economizemos espaço encerrando nossas considerações sobre literatura na visão freudiana, deixando, portanto, acordado que literatura é produto humano, sua fonte provém das relações e dos sentimentos possíveis entre humanos e o escritor é sim um homem comum, ainda que dotado de certa sensibilidade estética às coisas do seu mundo. Partamos para outros aspectos do texto freudiano, e nos delimitemos ao texto em si, que, além de belo,  traz interessantes conceitos de criatividade, realidade e fantasia, ainda que esses também merecessem discussões e conceituações além Freud.

A fantasia e a brincadeira são conceitos distintivamente apresentados por Freud nesse texto sob o qual nos debruçamos. A criatividade, para o autor, pode ser procurada na infância, no brincar da criança que diferencia o que é real e o que é fantasia tornando possível a encenação do mundo. O brincar da criança é determinado pelo desejo, no caso do infanto, o desejo de ser adulto, realizado sem vergonhas ou inibições, a criança está sempre brincando ‘de adulto’ e não tem motivos para ocultar esse desejo (p.151). Freud explica que para o homem nada é mais difícil quanto abdicar de um prazer que já experimentou, então, ao parar de brincar, ao crescer, a criança troca uma coisa pela outra, ou seja, em vez de brincar, agora fantasia.

A fantasia, por sua vez, é motivada pelos desejos insatisfeitos, toda a fantasia é uma correção da realidade insatisfatória (p.152), explica o psicanalista que divide a natureza de tais desejos motivadores da fantasia, em dois grupos naturais: os desejos ambiciosos - que elevam a personalidade do sujeito, e os desejos eróticos - que geram motivos para ocultamentos. Enquanto a criança no seu brincar não encontra vergonha, o adulto envergonha-se de suas fantasias por serem infantis e proibidas (p.151)..

Os escritores criativos são, na visão freudiana, sonhadores em plena luz do dia e suas criações, logo, são devaneios. Antes de considerarmos insanas as analogias do psicanalista, vejamos o que diz ele sobre devaneios e sobre tal associação aos profissionais da escrita criativa. A fórmula para explicar a comparação que nos apresenta Freud é um tanto quanto complexa, mas transcrevo-a. Diz ele:
Uma poderosa experiência no presente desperta no escritor criativo uma lembrança de uma existência anterior (geralmente de sua infância), da qual se origina então um desejo que encontra realização na obra criativa. A própria obra revela elementos da ocasião motivadora do presente e da lembrança antiga (p.156).
Melhor partirmos para outro tema! Sigmund Freud volta-se para a ligação entre o brincar infantil e a criação poética. É pensando nesse eixo infância-maturidade que ele apresenta a vivência que separa o brincar da realidade. Ao comparar o ato de escrever, o processo criativo, ao brincar da criança, ainda que não seja essa a intenção de Freud, uma leitora desavisada e freudianamente leiga, poderia interpretar que o psicanalista simplifica demasiadamente o ato de escrever. Escrever, criar arte literária é, para muitos, como podemos conferir em entrevistas e mesmo em teorias sobre o processo criativo, processo  árduo e mesmo dolorido. Escrever não é fruto de mero fantasiar, envolve um labutar com as coisas duras do mundo e do homem. Mas não intencionamos criticar ou travar embates com o pai da psicanálise, uma vez que sobre "o escrever" Freud é mestre e entende como ninguém! Que não me levem a mal, minhas palavras são frutos de minha leitura e foi para acomodá-las que criei este espaço.

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Palavra de Profissional: Em Escritores Criativos e Devaneio, pequeno ensaio de 1908, Freud lança as bases do que poderia se chamar de estética psicanalítica que se assenta na teoria, já esboçada por Aristóteles na Poética, de que há uma continuidade genética entre o brincar da criança e a criação artística. Para Freud, os elos mais importantes desta cadeia estão no sonho e no devaneio, como se o texto literário fosse um sonho do autor que por sua vez desencadeasse outros sonhos nos leitores. Tanto o autor ao produzir seu texto quanto o leitor realizam, simbolicamente, desejos reprimidos, tal como a criança faz através do seu jogo: manipula a realidade, cria “uma outra cena” onde tudo pode acontecer. Onde passado, presente e futuro misturam-se numa temporalidade sujeita apenas às rédeas do desejo. O que já foi voltará a ser; o que teria sido é presente para sempre. Tudo é possível graças ao fenômeno da “sedução estética”. Para Freud, a forma literária com sua inexplicável beleza tem a mesma função sedutora do “prazer preliminar” (Vorlust) no ato sexual: derrubar as barreiras da repressão permitindo a liberação de um prazer mais intenso e profundo (Endlust). 

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A Importância da Literatura

Cinco Gerações Tecnológicas - Lúcia Santaella




Lúcia Santaella,  em seu livro "Linguagens Líquidas na Era da Mobilidade" (2007), apresenta as cinco eras tecnologicas comunicacionais que, conforme explica a autora, coexistem e entretecem uma rede cerrada de realções em que nenhuma delas é 'causa' das demais,  todas se configuram como 'adjacências históricas' fortemente articuladas (p.194). Santaella afirma que nenhuma tecnologia da comunicação borra ou elimina as anteriores, juntam-se na composição intrincadíssima de uma cultura hiper-híbrida.



1° Geração - Tecnologias do Reprodutível
                        (Meios de comunicação de massa eletromecânicos)

A era da reprodutibilidade técnica   é a época do advento  do jornal, da fotografia e do cinema. Santaelle afirma que é a era que "lançou as sementes da cultura de massa". Nasce aqui a estética do choque e se introduz o automatismo  e a mecanização da vida sob a luz das redes de energia elétrica recém-inauguradas. Já se anunciava os novos tempos: tempos dos prazeres fugazes do consumo (p.195). Para caracterizar as transformações que as linguagens nascidas da reprodutibilidade produziram na percepção e cognição humanas. Santaelle atribui ao leitor dessa era o caráter da movência - um leitor movente que folheia o jornal com o mesmo olhar alerta e descontínuo que lhe é exigido para a orientação entre sinais, luzes e movimentos da grande cidade.



2° Geração - Tecnologia da Difusão
    (Meios de comunicação em massa eletroeletrônicos)

Entram no mercado da indústria cultural o rádio e a televisão que logo se expandem devido ao seu poder de difusão - responsável pela ascenção da cultura de massas. Santaella apresenta três etapas do cultivo das mídias televisivas: primeiro eram canais únicos, depois chegaram emissoras como a CNN e a MTV, e em sequência os reality shows. Controle remoto, videocassete, tv a cabo, enfim, uma série de equipamentos foram surgindo, introduzindo um tipo de mediação distinta daquela que está na base da cultura de massa.



3° Geração - Tecnologia do Disponível
                        (Tecnologias narrowcasting)

Tecnologias de pequeno porte, ou mesmo gadgets, equipamentos feitos para para atender a um tipo de cultura "muito misturada" que Santaella chama de "Cultura das Mídias" - que se distingue da lógica que comanda a comunicação de massa, se diferencia da comunicação via digital e do seu segmento chamado "cultura da mobilidade".

"Essas tecnologias, equipamentos e as linguagens criadas para circularem neles têm como principal característica propiciar a escolha e o individualizado, em oposição ao consumo massivo. São esses processos comunicativos que considero como construtivos de uma cultura das mídias. Foram eles que nos arrancaram da inércia da recepção das mensagens impostas de fora e nos treinaram para a busca da informação e do entretenimento que desejamos encontrar”. (SANTAELLA, 2003)
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Narrowcasting é definido pelo glossário no endereço eletrônico da ABTA (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura) como “emissão programada para atingir um grupo demográfico específico”. Essa definição pode ser ampliada para abranger um processo de oferta personalizada, onde determinado conteúdo é oferecido em sistema fechado ou de recepção restrita (assinatura, compra ou pay-per-wiew), em horários determinados ou por períodos estabelecidos aos interessados. Opões-se em conceito ao broadcasting, que é a emissão para vastas audiências. No narrowcasting, o conteúdo chega ao grupo de assinantes pela iniciativa desses receptores na busca da informação, todavia sendo ofertado conforme padrões e moldes da transmissão broadcast no que diz respeito às condições temporais para recepção do programa.
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4° Geração - Tecnologia do Acesso
                    (Tecnologia das redes de teleinformática)

Advento da internet, o universo de informações ao alcance das pontas dos dedos. O espaço virtual - ciberespaço - ganha força a partir da tecnologia da telecomunicação: "um espaço que está em todo lugar e em lugar nenhum" (p.198). Um espaço, explica ainda a autora, que nos traz um fluxo de linguagem multimídia, cujas características principais são a mutação e a multiplicidade. As tecnologias de acesso são tecnologias da inteligência que modificam os modos de armazenamento, manipulação e diálogo com as informações (p.199).



5° Geração - Tecnologia da Conexão Contínua
                                                     (Comunicação móvel)
As gerações tecnológicas, diz Santaella, não ocorrem por salto. A medida que a comunicação entre as pessoas e o acesso à internet e à informação deprenderam-se dos filamentos, todo o ambiente urbano foi adquirindo um novo desenho resultante da interferência e intromissão do virtual na vida real (p.199). As tecnologias móveis foram sendo incorporadas pelas pessoa, numa interface de linguagens tão amigáveis que analfabetos e crianças conseguem interagir com elas. Essa geração de tecnologias é constituída por "uma rede móvel de pessoas e tecnologias nômades que operam em espaços físicos não contíguos". para fazer parte desse espaço, uma pessoa (um nó) não precissa compartilhar o mesmo geográfico com o outro , pois trata-se de um espaço híbrido, criado justamente pela fusão de lugares diferentes e desconectados.


Ferramentas de adaptação a um universo urbano de fluxo intenso, onde o leitor/interador está sempre envolvido em mais de uma atividade, relacionando-se com mais de um dispositivo e desempenhando tarefas múltiplas e não correlatas (p.200).





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Mediações Tecnológicas e suas Metáforas - Santaella
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19 de março de 2011

Bakhtin e Bourdieu

Publicada primeiramente em 1929, em “Marxismo e Filosofia da Linguagem” (pdf) Bakhtin desenvolve uma reflexão sobre a filosofia da linguagem, abordando a ótica da teoria marxista que, segundo o autor,  encontra-se frente a uma árdua tarefa; a procura de uma abordagem objetiva, porém refinada e flexível, do psiquismo subjetivo consciente do homem, que, em geral, é analisado pelos métodos de introspecção.(p.34).

Através de exemplificações coerentes, Bakhtin afirma que tudo o que é ideológico é um signo, visto que tudo que é ideológico possui um significado que remete a algo situado fora de si. Adquirindo, assim, um sentido que ultrapassa suas particularidades, o signo não pode ser tomado como algo que existe apenas como parte de uma realidade, pois ele também reflete, refrata uma outra. Todo o corpo físico, todo produto material ou ideológico pode ser convertido em signo, afirma o filosofo, concluindo que ao lado desses existe um universo particular, que denomina o universo de signos.

Para o filósofo da linguagem, a compreensão dos signos dá-se em ligação com a situação, o contexto em que ele toma forma e esse contexto, essa situação é sempre social. O signo ideológico na constituição do sujeito, afirma Bakhtin, parte do exterior para o interior, ou seja, do social para o individual, e a palavra nada mais é do que produto de interação viva das forças sociais. Na construção de sua filosofia da linguagem, o autor passa a valorizar a fala – a enunciação -, deixada de lado por Saussure. Opera este o resgate do sujeito nos estudos linguísticos, pensando as relações da linguagem como um todo, vista do ponto de vista da interação humana. Os conceitos de Bakhtin se contrapõem à concepção de língua como sistema sem sujeito, pois é preciso considerar que o organismo humano não pertence a um meio natural abstrato, mas faz parte integrante de um meio social específico (p.53).

Diante de tais conceitos, estranho seria não associar as teorias de Bakhtin aos conceitos do sociólogo francês Pierre Bourdieu. Ainda que entre os dois teóricos existam pontos cruciais de convergência , ambos tratam de reinserir o sujeito nos objetos de estudo de suas respectivas áreas de conhecimento, tratando de situá-los em uma dinâmica social. Tanto para Bakhtin quanto para Bourdieu o sujeito se constitui do social para o individual, ao que podemos inferir que os sujeitos são formados pela incorporação de disposições (habitus) produzidas no interior de um dado espaço social (campo). Tais concepções rompem com o subjetivismo “transcendental”, tanto da língua - na visão de Vossler -, quanto da literatura – na visão de Hegel.

Bourdieu, em suas análises sobre o campo literário, busca romper com a concepção de literatura - para Bakhtin o ato de fala impresso (p.123) -, entendida, ainda hoje, como um bem predominantemente espiritual, produzido pela inspiração de um artista isolado na sublime profissão. A perspectiva de Bourdieu é antes relacional, compreendendo as manifestações literárias a partir de posições ocupadas no interior de um campo - espaço autônomo, onde ocorrem relações entre agentes, que atuam segundo certas leis e regras, as quais acarretam a incorporação de habitus, conceito assim definido pelo autor:

[...] sistema de disposições inconscientes que constitui o produto da interiorização das estruturas objetivas e que, enquanto lugar geométrico dos determinismos objetivos e de uma determinação, do futuro objetivo e das esperanças subjetivas, tende a produzir práticas e, por esta via, carreiras objetivamente ajustadas às estruturas objetivas (BOURDIEU, 1994).

Ao conceber seu objeto, as obras, não apenas como produtos finais, depósito de valores do espírito, mas como produções resultantes de ações humanas concretas inseridas em um sistema cultural, Bourdieu se aproxima de Bakhtin que, sobre os estudos da língua diz:

A separação da língua de seu conteúdo ideológico constitui um dos erros mais grosseiros do objetivismo abstrato. Assim, a língua, para a consciência dos indivíduos que a falam, de maneira alguma se apresenta como um sistema de formas normativas. O sistema linguístico tal como é constituído pelo objetivismo abstrato não é diretamente acessível à consciência do sujeito falante, definido por sua prática viva de comunicação social (p. 96).
Algumas outras aproximações e associações relevantes poderiam ser analisadas e apontadas no que diz respeito à aproximação das teorias desses dois autores-filósofos. Mas, por ora, careço da apropriação de algumas leituras para dar sustentação a tal feito, leituras essas que já selecionadas, aguardam minha atenção. Mais informações, por sua vez, podem ser encontradas no excelente artigo da Prof. Sheila Vieira de camargo Grillo - "A noção de campo nas obras de Bourdieu e do Círculo de Bakhtin: suas implicações para a teorização dos gêneros do Discurso". Revista da ANPOLL. São Paulo: v. 19, p. 151-184, 2005.


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16 de março de 2011

O Mal-Estar na Civilização – Sigmund Freud e a Literatura na Era Digital

[...] a felicidade da vida é predominantemente buscada na fruição da beleza, onde quer que esta se apresente a nosso julgamento – a beleza das formas e dos gestos humanos, a dos objetos naturais e das paisagens e a das criações artísticas e mesmo científicas. [...] A beleza não conta com um emprego evidente; tampouco existe claramente qualquer necessidade cultural sua. Apesar disso, a civilização não pode dispensá-la (p.101-102).
À frente das satisfações obtidas através da fantasia ergue-se a fruição das obras de arte, fruição que, por intermédio do artista, é tornada acessível inclusive àqueles que não são criadores (p.99-100).

É sempre possível que, mesmo na mente, algo do que é antigo seja apagado ou absorvido – quer no curso normal das coisas, quer como exceção – a tal ponto que não possa ser restaurado nem revivescido por meio algum [...] (p.90).


Durante a leitura da obra “O mal-estar na civilização”, destaquei alguns trechos da narrativa freudiana que, direcionados ao campo literário, nos servirão de base à questão que traçaremos. Freud ao negar que exista qualquer necessidade cultural da beleza, e beleza aqui será sinônimo de criações artísticas – mais especificamente produções literárias -, pondera que a civilização não pode dispensá-la (p.102). Não é interesse, neste momento, nos determos aos atributos que ao homem é conferido através do cultivo da arte, nem à concretude cinzenta e insustentável em que viveríamos sem ela. Interessante é voltarmos nossas atenções para a literatura e a produção do livro que, em tempos tão complexos e práticos, ainda hoje tem seus representantes multiplicados.

Diante da produção literária da última década, matéria de minha investigação de mestrado, podemos observar uma fértil e curiosa proliferação de produtores literários. Contrários às constatações de que não existem mais leitores; de que os jovens têm dificuldades em escrever ou ler; de que a internet empobrece a escrita; de que o livro é produto pouco vendido - e está com os dias contados, uma vez que não terá espaço em uma cultura voltada à velocidade digital -, escritores vários, notoriamente jovens, surgem e movimentam a literatura e o fazer literário. Esses produtores de que falo, iniciam-se na arte cada vez mais jovens, ou seja, os novos escritores pertencem a mesma geração que traz à tona todas essas “ameaças” citadas, configurando um fenômeno, no mínimo, contraditório e curioso.

Esses novos escritores de que tratamos não só dão continuidade a arte de escrever como, tendo toda uma tecnologia digital disponível, tendo às redes da web de alcance infinitamente mais amplo, desejam e articulam para ver suas narrativas impressas no bom e velho livro. Participam de concursos literários em que os prêmios são edições impressas das obras vencedoras; desejam ter seus nomes vinculados a editoras de prestígio; e, quando não são acolhidos pelo mercado editorial, criam suas próprias editoras. Tais fatos nos torna possível a interpretação de que o livro ainda é o suporte que confere às produções literárias, o status de literatura, de produção artística, ou como diz Freud, de beleza.

Tomando emprestada a questão formulada por Hegel (1) e adaptando-a aos nossos propósitos: por que ainda cria o homem obras de arte? Poderíamos supor, para situar nosso questionamento nos conceitos freudianos, que a produção literária - considerando, repito, literatura como produção artística - está associado à busca da satisfação, ou seja, ao princípio do prazer que a tecnologia, a cultura digital, não pôde suprir. Segundo Freud, a vida tal qual a encontramos é árdua e difícil para nós e para suportá-la lançamos mão de medidas paliativas, como as satisfações substitutivas, nas quais se encontram os ‘prazeres’ proporcionados pela arte (p.93). Drummond (2) observou certa vez que, contraposta à realidade, a literatura pode ser metaforicamente compreendida como se tivesse duas portas: uma que fosse via de fuga da realidade, outra uma via de penetração mais profunda na própria realidade. Ainda que reconheça as satisfações obtidas através da fantasia e a fruição que se ergue no fazer literário (FREUD, p.100), nossa questão não pode ser avalizada, e encerrada, pelo crivo único da satisfação, uma vez que a literatura, como muito bem definiu Drumonnd, não situa-se exclusivamente na fuga substitutiva. Pode a literatura representar a penetração na própria realidade e aqui o argumento do princípio do prazer se desfaz.

Ainda nos resta, seguindo os recortes da obra de Freud em que nos fundamentamos, associar a persistência da arte, da literatura diante a cultura digital - representada pelas ações dos novos escritores sob os quais voltamos aqui nossos olhares – ao temor do aniquilamento ou, em outras palavras, do esquecimento. Na visão do psicanalista Freud, ainda que em outro contexto - o da memória primitiva -, nada do que uma vez se formou no mnêmico pode perecer, mas as portas da possibilidade contrária são abertas pelo próprio, ao afirmar que é sempre possível que algo seja apagado ou absorvido (p.87-90). Como não temos consciência de tal memória de que nos fala Freud, padecemos diante da possibilidade do esquecimento, do aniquilamento de nossa existência, da morte.

Trazemos a baila o autor Coetzee (3), que melhor pode significar o medo de que falamos, na perspectiva do escritor. Coetzee, em meio as suas ideias expostas na obra “Verão ”, nos revela que escrever é um gesto de recusa diante da época. Uma aposta na imortalidade. Mas, explica o autor, a imortalidade que busca através dos livros que escreve, não é no sentido de existir fora do tempo (p.68). Seguindo nossa linha de raciocínio, dentro do contexto em que situamos nossa discussão, em meio à velocidade e rapidez que a era digital nos impõe, vista a proliferação frenética de informações que nos chegam, podemos considerar que a nossa questão encontre um de seus pilares aqui, no medo do esquecimento.

As criações, as manifestações escritas têm, com a tecnologia da web, uma dinâmica esquizofrênica, que colocam os escritores em meio a uma dicotômica realidade. Ainda que a internet como suporte literário tenha uma capacidade de alcance e circulação mais ampla e acessível do que os livros, em meio ao fluxo caótico que se instaurou pela facilidade de acesso e exposição de informações e ideias, a possibilidade de cair no esquecimento, ou de tornar-se invisível no mundo virtual, duplicou. Assim podemos, com alguma pouca segurança, inferir que a preocupação dos novos escritores em ter suas narrativas impressas em livros se justifique. Além de assegurar a imortalidade que nos significou Coetzee, encontram nas obras impressas a certeza de que não serão invisibilizados pela tecnologia. Logo, o suporte de suas ideias continua sendo transferido do neural para o antigo e mais “eficiente” livro.

Certamente essa discussão que iniciamos aqui não se encontra encerrada, sequer bem delineada. Também é certo que as linhas deste trabalho não serão suficientes para esgotar as possibilidades explicativas da questão, mas cumpre este o papel assertivo de alertar para que a literatura contemporânea hoje vive um verdadeiro boom literário e observá-lo é atentar para as mudanças resultantes do surgimento de outras vozes e de novos sujeitos, ainda carentes de analise.
_________________________
[1] A indagação originalmente feita por Hegel, in “Estética: a idéia e o ideal”,  foi "Por que cria o homem obras de arte?”.  Ainda que Hegel conceba a arte como uma manifestação do espírito ou matéria ligada à intuição e ao elevado grau profético, considerações contrárias às concepções que embasam minha pesquisa de mestrado, cabe a sua formulação, ainda que adaptada ao contexto em que se situa a matéria.

[3] COETZEE, J.M.  Verão: Cenas da vida na província. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letra, 2010.



7 de março de 2011

Crônicas de Carnaval - Machado de Assis

12 de Fevereiro de 1893

FALECI ONTEM, pelas sete horas da manhã. Já se entende que foi sonho; mas tão perfeita a sensação da morte, a despegar-me da vida tão ao vivo o caminho do céu, que posso dizer haver tido um antegosto da bem-aventurança.

Ia subindo, ouvia já os coros de anjos, quando a própria figura do Senhor me apareceu em pleno infinito. Tinha uma ânfora nas mãos, onde espremera algumas dúzias de nuvens grossas, e inclinava-a sobre esta cidade, sem esperar procissões que lhe pedissem chuva. A sabedoria divina mostrava conhecer bem o que convinha ao Rio de Janeiro; ela dizia enquanto ia entornando a ânfora:

— Esta gente vai sair três dias à rua com o furor que traz toda a restauração. Convidada a divertir-se no inverno, preferiu o verão não por ser melhor, mas por ser a própria quadra antiga, a do costume, a do calendário, a da tradição, a de Roma, a de Veneza, a de Paris. Com temperatura alta, podem vir transtornos de saúde, — algum aparecimento de febre, que os seus vizinhos chamem logo amarela, não lhe podendo chamar pior... Sim, chovamos sobre o Rio de Janeiro.

Alegrei-me com isto, posto já não pertencesse à terra. Os meus patrícios iam ter um bom carnaval, — velha festa, que está a fazer quarenta anos, se já os não fez. Nasceu um pouco por decreto, para dar cabo do entrudo, costume velho, datado da colônia e vindo da metrópole. Não pensem os rapazes de vinte e dous anos que o entrudo era alguma cousa semelhante às tentativas de ressurreição, empreendidas com bisnagas. Eram tinas d'água, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam à força um cidadão todo, — chapéu, dignidade e botas. Eram seringas de lata; eram limões de cera. Davam-se batalhas porfiadas de casa a casa, entre a rua e as janelas, não contando as bacias d'água despejadas a traição. Mais de uma tuberculose caminhou em três dias o espaço de três meses.

Quando menos, nasciam as constipações e bronquites, ronquidões e tosses, e era a vez dos boticários, porque, naqueles tempos infantes e rudes, os farmacêuticos ainda eram boticários.

Cheguei a lembrar-me, apesar de ir caminho do céu, dos episódios de amor que vinham com o entrudo. O limão de cera, que de longe podia escalavrar um olho, tinha um ofício mais próximo e inteiramente secreto. Servia a molhar o peito das moças; era esmigalhado nele pela mão do próprio namorado, maciamente, amorosamente, interminavelmente . . .

Um dia veio, não Malesherbes, mas o carnaval, e deu à arte da loucura uma nova feição. A alta roda acudiu de pronto; organizaram-se sociedades, cujos nomes e gestos ainda esta semana foram lembrados por um colaborador da Gazeta. Toda a fina flor da capital entrou na dança. Os personagens históricos e os vestuários pitorescos, um doge, um mosqueteiro, Carlos V, tudo ressurgia às mãos dos alfaiates, diante de figurinos, à força de dinheiro. Pegou o custo das sociedades, as que morriam eram substituídas, com vária sorte, mas igual animação.

Naturalmente, o sufrágio universal, que penetra em todas as instituições deste século, alargou as proporções do carnaval, e as sociedades multiplicaram-se, com os homens. O gosto carnavalesco invadiu todos os espíritos, todos os bolsos, todas as ruas. Evohé! Bacchus est roi! dizia um coro de não sei que peça do Alcazar Lírico, — outra instituição velha, mas velha e morta. Ficou o coro, com esta simples emenda: Evohé! Momus est roi!

Não obstante as festas da terra, ia eu subindo. subindo, até que cheguei à porta do céu, onde S. Pedro parecia, aguardar-me, cheio de riso.

— Guardaste para ti tesouros no céu ou na terra? perguntou-me.

Se crer em tesouros escondidos na terra é o mesmo que escondê-los, confesso o meu pecado, porque acredito nos que estão no morro do Castelo, como nos cento e cinqüenta contos fortes do homem que está preso em Valhadolide. São fortes; segundo o meu criado José Rodrigues, quer dizer que são trezentos contos. Creio neles. Em vida fui amigo de dinheiro, mas havia de trazer mistério. As grandes riquezas deixadas no Castelo pelos jesuítas foram uma das minhas crenças da meninice e da mocidade; morri com ela, e agora mesmo ainda a tenho. Perdi saúde, ilusões, amigos e até dinheiro, mas a crença nos tesouros do Castelo não a perdi. Imaginei a chegada da ordem que expulsava os jesuítas. Os padres do colégio não tinham tempo nem me os de levar as riquezas consigo; depressa, depressa, ao subterrâneo, venham os ricos cálices de prata, os cofres de brilhantes, safiras, corais, as dobras e os dobrões, os vastos sacos cheios de moeda, cem, duzentos, quinhentos sacos. Puxa, puxa este Santo Inácio de ouro maciço, com olhos de brilhantes, dentes de pérolas, toca a esconder, a guardar, a fechar...

— Pára, interrompeu-me S. Paulo; falas como se estivesses a representar alguma cousa. A imaginação dos homens é perversa. Os homens sonham facilmente com dinheiro. Os tesouros que valem são os que se guardam no céu, onde a ferrugem os não come.

— Não era o dinheiro que me fascinava em vida, era o mistério. Eram os trinta ou quarenta milhões de cruzados escondidos, há mais de século, no Castelo; são os trezentos contos do preso de Valhadolide. O mistério, sempre o mistério.

— Sim, vejo que amas o mistério. Explicar-me-ás este de um grande número de almas que foram daqui para o Brasil e tornaram sem se poderem incorporar?

— Quando, divino apóstolo?

— Ainda agora.

— Há de ser obra de um médico italiano, um doutor ... esperai... creio que Abel, um doutor Abel, sim Abel... É um facultativo ilustre. Descobriu um processo para esterilizar as mulheres. Correram muitas, dizem; afirma-se que nenhuma pode já conceber; estão prontas.

— As pobres almas voltavam tristes e desconsoladas; não sabiam a que atribuir essa repulsa. Qual é o fim do processo esterilizador? — Político. Diminuir a população brasileira, à proporção que a italiana vai entrando; idéia de Crispi, aceita por Giolitti, confiada a Abel ...

— Crispi foi sempre tenebroso.

— Não digo que não; mas, em suma, há um fim político, e os fins políticos são sempre elevados ... Panamá, que não tinha fim político ...

— Adeus, tu és muito falador. O céu é dos grandes silêncios contemplativos.



4 de Fevereiro de 1894

QUANDO EU Li que este ano não pode haver carnaval na rua, fiquei mortalmente triste. É crença minha, que no dia em que deus Momo for de todo exilado deste mundo, o mundo acaba. Rir não é só le propre de 1'homme, é ainda uma necessidade dele. E só há riso, e grande riso, quando é público, universal, inextinguível, à maneira de deuses de Homero, ao ver o pobre coxo Vulcano.

Não veremos Vulcano estes dias, cambaio ou não, não ouviremos chocalhos, nem guizos, nem vozes tortas e finas. Não sairão as sociedades, com os seus carros cobertos de flores e mulheres, e as roupas de veludo e cetim. A única veste que poderá aparecer, é cinta espanhola, ou não sei de que raça, que dispensa agora os coletes e dá mais graça ao corpo. Esta moda quer-me parecer que pega; por ora, não há muitos que a tragam. Quatrocentas pessoas? Quinhentas? Mas toda religião começa por um pequeno número de fiéis. O primeiro homem que vestiu um simples colar de miçangas, não viu logo todos os homens com o mesmo traje; mas pouco a pouco a moda pegando, até que vieram atrás das miçangas, conchas, pedras e outras. Daí até o capote, e as atuais mangas de presunto, em que as senhoras metem os braços, que caminho! O chapéu baixo, feltro ou palha, era há 25 anos uma minoria ínfima. Há uma chapelaria nesta cidade que se inaugurou com chapéus altos em toda a parte, nas portas, vidraças, balcões, cabides, dentro das caixas, tudo chapéus altos. Anos depois, passando por ela, não vi mais um só daquela espécie; eram muitos e baixos, de vária matéria e formas variadíssimas.

Não admira que acabemos todos de cinta de seda. Quem sabe não é uma reminiscência da tanga do homem primitivo? Quem sabe se não vamos remontar os tempos até ao colar de miçangas? Talvez a perfeição esteja aí. Montaigne é de parecer que não fazemos mais que repisar as mesmas cousas e andar no mesmo círculo; e o Eclesiastes diz claramente que o que é, foi, e o que foi, é o que há vir. Com autoridades de tal porte, podemos crer que acabarão algum dia alfaiates e costureiras. Um colar apenas, matéria simples, na mais; quando muito, nos bailes, um simulacro de gibus para pede com graça uma quadrilha ou uma polca. Oh! a polca das miçanga. Há de haver uma com esse título, porque a polca é eterna, e quando não houver mais nada, nem sol, nem lua, e tudo tornar às trevas, últimos deus ecos da catástrofe derradeira usarão ainda, no fundo do infinito, esta polca, oferecida ao Criador: Derruba, meu Deus, derruba!

Como se disfarçarão os homens pelo carnaval quando voltar a idade da miçanga? Naturalmente com os trajes de hoje. A Gazeta de Notícias escreverá por esse tempo um artigo, em que dirá:

Pelas figuras que têm aparecido nas ruas, terão visto os nossos leitores Onde foi, séculos atrás, já não diremos o mau gosto, que é evidente, mas a violação da natureza, no modo de vestir dos homens. Quando possuíam as melhores casacas e calças, que são a própria epiderme, tão justa ao corpo, tão sincera, inventaram umas vestiduras perversas, falsas. Tudo é obra do orgulho humano, que pensa aperfeiçoar a natureza, quando infringe as suas leis mais elementares. Vede o lenço; o homem de outrora achou que ele tinha uma ponta de mais, e fez um tecido de quatro pontas, sem músculos, sem nervos, sem sangue, absolutamente imprestável, desde que não esteja a da pessoa. Há no nosso museu nacional um exemplar dessa ridicularia. Hoje, para dar uma idéia viva da diferença das duas civilizações, publicam um desenho comparativo, dous homens, um moderno, outro dos fins do século XIX; é obra de um jovem por um dos redatores desta folha, o nosso excelente companheiro João, amigo de todos os tempos.

Que não possa eu ler esse artigo, ver as figuras, compará-las, e repetir os ditos do Eclesiastes e de Montaigne, e anunciar aos povos desse tempo que a civilização mudará outra vez de camisa! Irei antes, muito antes, para aquela outra Petrópolis, capital da vida eterna. Lá ao menos há fresco, não se morre de insolação, nome que já entrou no nosso obituário, segundo me disseram esta semana. Não se pode imaginar a minha desilusão. Eu cria que, apesar de termos um sol de rachar, não morreríamos nunca de semelhante cousa. Há anos deram-se aqui alguns casos de não sei que moléstia fulminante, que disseram ser isso; mas vão lá provar que sim ou que não. Para se não provar nada, é que o mal fulmina. Assim, nem tudo acaba em cajuada, como eu supunha; também se morre de insolação. Morreu um, morrerão ainda outros. A chuva destes dias não fez mais que açular a canícula.

De resto, a morte escreveu esta semana em suas tabelas, algumas das melhores datas, levando consigo um Dantas, um José Silva, um Coelho Bastos. Não se conclui que ela tem mais amor aos que sobrenadam, do que aos que se afundam; a sua democracia não distingue. Mas há certo gosto particular em dizer aos primeiros, que nas suas águas tudo se funde e confunde, e que não há serviços à pátria ou à humanidade, que impeçam de ir para onde vão os inúteis ou ainda os maus. Vingue-se a vida guardando a memória dos que o merecem, e na proporção de cada um, distintos com distintos, ilustres com ilustres.

Essa há de ser a moda que não acaba. Ou caminhemos para a perfeição deliciosa e terna, ou não façamos mais que ruminar, perpétuo camelo, o mesmo jantar de todas as idades, a moda de morrer é a mesma ... Mas isto é lúgubre, e a primeira das condições do meu ofício é deitar fora as melancolias, mormente em dia de carnaval. Tornemos ao carnaval, e liguemos assim o princípio e o fim da crônica. A razão de o não termos este ano, é justa; seria até melhor que a proibição não fosse precisa, e viesse do próprio ânimo dos foliões. Mas não se pode pensar em tudo.


Machado de Assis, crônicas publicadas em A semana. Machado de Assis, Obra Completa, vol. III. Editora Nova Aguilar.

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Crítica Machado de Assis - Revista O CruzeiroEça de Queirós
Contos Marcantes - Meus Contos Inesquecíveis
Eduardo Galeano, outras
Charles Darwin - 200 Anos
História da Cerveja
A Importância da Literatura

5 de março de 2011

Como fazer Resumos

Qual o objetivo do resumo?
Resumo é uma apresentação concisa e freqüentemente seletiva do texto de um artigo, obra ou outro documento, pondo em destaque os elementos de maior interesse e importância. O gênero resumo é um dos mais importantes nas atividades acadêmicas, pois as capacidades produção desse gênero são indispensáveis para a produção de outros gêneros acadêmicos, tais como resenha, artigos, relatórios, projetos, etc.


O resumo informativo
Resumir (resumo informativo) é fazer uma condensação fiel das idéias contidas em um texto, uma redução do texto original. Quem resume apresenta, com as próprias palavras, os pontos relevantes de um texto, procurando expressar suas idéias essenciais na progressão e no encadeamento em que aparecem.

No resumo informativo você deve abster de comentários / julgamentos pessoais / juízo de valor a respeito do texto resumido, mais próprios do resumo


Para se fazer um bom resumo...
 Para se fazer um bom resumo, antes de tudo, é necessário compreender o texto original. Para tal, é importante identificar a ideia principal e as secundárias, destacando as ideias que o autor considera relevante. Quando se tratar de gêneros argumentativos, busque identificar:
  •  a questão que é discutida (tema tratado pelo autor);
  •  a problema que o autor apresenta (tese);
  •  a posição (tese) que o autor defende;
  •  a contraposição apresentada (contraponto);
  •  os argumentos que sustentam ambas as posições;
  •  a conclusão final do autor.

Processo de Sumarização
Sumarização é um processo mental natural, essencial para a produção de resumos, que sempre ocorre durante a leitura, mesmo quando não produzimos resumos orais ou escritos. O processo de sumarização segue uma certa lógica que depende, entre outros elementos, do tipo de destinatário e do que julgamos que ele deve conhecer sobre o texto segundo seus objetivos:  
  • Apagamento de conteúdos facilmente inferíveis a partir de nosso conhecimento de mundo.
  • Apagamento de sequências de expressões que indicam sinonímia ou explicação.
  • Apagamento de exemplos.
  • Apagamento das justificativas de uma afirmação.
  • Apagamento de argumentos contra a posição do autor.
  • Reformulação das informações, utilizando termos mais genéricos.
  • Conserva-se as informações, dado que não são resumíveis.
Observe o processo de sumarização nos exemplos abaixo:

1. TEXTO ORIGINAL: Com a evolução política da humanidade, dois valores fundamentais consolidaram o ideal democrático: a liberdade e a igualdade, valores que foram traduzidos como objetivos maiores dos seres humanos em todas as épocas. Mas os avanços e as conquistas populares em direção a esses objetivos nem sempre se desenvolveram de forma pacífica. Guerras, destruições e enforcamentos de reis e monarcas, revoluções populares e golpes de estado marcaram a trajetória da humanidade em sua busca de liberdade e igualdade. (Clóvis Brigadão, 1988)



2. PROCESSO DE SUMARIZAÇÃO: Com a evolução política da humanidade, dois valores fundamentais consolidaram o ideal democrático: a liberdade e a igualdade, valores que foram traduzidos como objetivos maiores dos seres humanos em todas as épocas. Mas os avanços e as conquistas populares em direção a esses objetivos nem sempre se desenvolveram de forma pacífica. Guerras, destruições e enforcamentos de reis e monarcas, revoluções populares e golpes de estado marcaram a trajetória da humanidade em sua busca de liberdade e igualdade. (Clóvis Brigadão, 1988)

3. RESUMO: Ao longo da evolução da humanidade, dois objetivos maiores do homem consolidaram o ideal democrático: a liberdade e a igualdade. No entanto, a perseguição desses valores não se desenvolveu de forma pacífica.


Na sumarização apagamos:
  • As explicações: “valores que foram traduzidos como objetivos maiores dos seres humanos em todas as épocas”.
  • As inferências: se não houvesse avanço de forma pacífica, evidente houve guerras, revoluções, etc.
Para sumarizar, antes de qualquer coisa é necessário compreender o texto original. É preciso identificar a ideia principal e as secundárias. Podemos eliminar, sempre que possível, exemplos, sinônimos, explicações e justificativas e efetuar generalizações. Frequentemente alguns conectivos (nexos) como mas, isto é, porém, portanto, porque auxiliam essa identificação e podem orientar os processos de sumarização.


Como iniciar seu resumo
 Para iniciar seu resumo, é interessante construir um parágrafo introdutório, a fim de contextualizar o seu leitor. Indique o texto que será resumido, o autor e algumas informações relevantes sobre o seu perfil, o tema que será tratado, etc.


No desenvolvimento do seu resumo...
No desenvolvimento, utilize os nexos coesivos (conjunções) para “costurar” o seu texto (resumo). Os nexos são elementos importantes na construção textual, pois “conectam” as ideias conferindo coesão e coerência a sua construção.

Alguns nexos:
  •  Adversativos: porém – contudo – entretanto – não obstante – etc.
  • Explicativos: pois – visto que – já que – etc.
  • Condicionais: caso – a menos que – contanto que – etc.
  • Causais: na medida em que – uma vez que – etc.
  • Concessivas: embora – ainda que – apesar de que – etc.
  • Finais: a fim de que – para que – etc.
  • Conformativos: conforme – segundo – etc.
  • Proporcionais: à proporção que – à medida que – etc.
  • Conclusivo: logo – portanto – por isso – consequentemente – etc.

Deixe claro no seu resumo de quem são as ideias ali expostas. Para tal, mencione o autor de diversas formas, usando os verbos mais adequados para indicar os diferentes atos do autor:

apontar – definir – descrever – elencar – enumerar - classificar – caracterizar – exemplificar – contrapor – confrontar – comparar – criticar - julgar - questionar – apresentar –mostrar - começar – iniciar introduzir – relatar – narrar – exemplificar - acreditar – pensar – expor - afirmar – abordar – esclarecer - comprovar – defender – argumentar – justificar - sugerir – incitar - negar - opor – diferenciar – etc.

Ao produzir o seu resumo tenha em vista que o leitor a quem se destina o seu texto não conhece o texto original. Cabe a você passar-lhe as informações importantes para a compreensão. Por fim, analise o seu resumo perguntando-se: O meu resumo pode ser compreendido em si mesmo por um leitor que não conhece o texto original?

4 de março de 2011

A Teoria dos Polissistemas – Itamar Even-Zohar



A Teoria dos Polissistemas

A literatura não configura apenas um conjunto de textos acabados e encerrados em si mesmos. Configura, antes, um agregado de atividades que, como um todo, constitui um sistema que interage com outros sistemas. Even-Zohar, para organizar os elementos que constituem o (poli)sistema, tomou emprestado o conhecido esquema da comunicação e da linguagem elaborado por Roman Jakobson e o adaptou ao caso da literatura, ficando assim constituído e definido :

                                                               Instituição
                                                                (contexto)
                                                                        
                                                               Repertório
                                                                  (código)

           Produtor                                                                              Consumidor
       (emissor; escritor)                                                                   (receptor, leitor)

                                                                 Mercado
                                                            (contato; canal)

                                                                  Produto
                                                                (mensagem)



Produtor e produtores: O termo escritor não é diretamente utilizado para não suscitar, conforme aponta Even-Zohar, imagens muito específica. Os estudos literários tinham por tradição cultural colocar o escritor como o centro da literatura. Quando se viu extinta tal prática, surgiram os modelos “interpretativos” que tomam os textos como algo que existe de maneira tal que não é necessário questioná-los ou investigá-los, restando somente decifrar seus segredos “místicos”. Segundo Zohar, faz-se necessário pensar os “textos” como produto produzido por um produtor, inserido em certo contexto social, vinculado a um discurso de poder moldado segundo certo repertório aceitável e legitimado. Os produtores não estão confinados a um só papel na rede literária, atuam, muitas vezes, em outras atividades.

Consumidor e consumidores: Even-Zohar diz que o termo leitor remete a uma entidade específica para a qual se produz literatura, não alcançando a infinidade de indivíduos atingidos pela produção literária que não é só consumida mediante a leitura. Preferindo, então, o termo “consumidor”, o autor destaca a existência de consumidores diretos e indiretos, sendo que todos os membros de qualquer comunidade são ao menos consumidores “indiretos” de literatura, pois consomem fragmentos literários, digeridos e transmitidos por variados agentes culturais e integrados no discurso diário. Os consumidores diretos são aquelas pessoas voluntárias e interessadas nas atividades literárias - participam de várias outras formas no sistema literário. Os consumidores de literatura consomem a função sócio-histórica dos atos implicados nas atividades em questão.

Instituição: Consiste em um agregado de fatores implicados na manutenção da literatura como atividade sócio-cultural, regendo normas que prevalecem nessa atividade, sancionando umas e rechaçando outras. Remunera e penaliza os produtores e agentes, como também determina quem e que produtos serão lembrados por uma comunidade. Para Even-Zohar a instituição inclui parte dos produtores: críticos, editoras, periódicos, grupo de editores, escolas, universidades, meios de comunicação, etc. As instituições podem operar em diferentes seções dentro do sistema, conforme disputas travadas pelo domínio, na imposição de suas preferências.

Mercado: Comporta conjunto de fatores implicados na compra e venda de produtos literários e na promoção de tipos de consumo e inclui instituições abertas, dedicadas a troca de mercadorias, tais como livrarias, clubes do livro e bibliotecas. Os fatores da instituição literária e do mercado literário podem naturalmente encontrar-se no mesmo espaço: Uma escola, exemplifica Even-Zohar, é um membro de uma instituição, que pode servir de mercado, devido sua capacidade de vender o produto aos estudantes, servindo o professor como mercador.

Repertório: Conjunto de regras e materiais, conhecimentos partilhados que regem tanto a confecção quanto o uso de qualquer produto. Se considerados os “textos” como a mais evidente manifestação da literatura, o repertório literário será o conjunto de regras e unidades que classificam os tipos de discurso. Por outra parte, se considerado que a manifestação da literatura existe em vários níveis, o repertório literário pode ser concebido como um agregado de repertórios específico para cada um desses níveis. A estrutura de repertório pode ser definida em três níveis distintos: o nível dos elementos individuais, dos sintagmas e dos modelos. O nível dos modelos corresponde ao conceito de gêneros. O autor considera que a concepção de que as produções literárias são dadas pelos tipos (gêneros) cotidianos de discursos contribui para nos libertarmos do conceito romântico da “criação livre”.

Produto: Even-Zohar questiona o texto visto como manifestação única da literatura, pois considera que esse já não é o único, nem necessariamente, o mais importante produto literário. São também produtos quaisquer conjuntos de signos realizado (ou realizáveis), resultantes de uma atividade qualquer como, por exemplo, aquelas retiradas das obras ou referentes a elas: resumos, resenhas, críticas, citações, referência.

Para conhecer melhor as teorias de Even-Zohar acesse o Itamar EVEN-ZOHAR's site. O autor disponibiliza todos os seus textos no sítio, com traduções em inglês e espanhol.


Breve Descrição Biográfica - Itamar Even-Zohar

Itamar Even-ZOHAR é Professor Emérito de Pesquisa Cultural na Universidade de Tel Aviv, onde nasceu no ano de  1939. Diplomou-se nas universidades de Tel Aviv (BA, e doutorado) e Jerusalém (MA), tendo estudado ainda em Oslo, Copenhagen e Estocolmo. Trabalhou como professor convidado e/ou acadêmico nas universidades europeias e norte-americanas, e fez parte dos grandes centros de pesquisa, como Amsterdã, Paris, Filadélfia, Reykjavík, Quebec City, Louvain, Santiago de Compostela, Santander, São John's (Newfoundland), Barcelona e Santa Cruz (Califórnia). Zohar tem um conhecimento prático em diversos idiomas, entre eles: hebraico (língua materna), árabe, inglês, francês, espanhol, sueco, norueguês, dinamarquês, italiano, russo, alemão, islandês, e algumas outras línguas.

Seu principal trabalho encontra-se na Teoria dos Polissistemas, projetada para lidar com a dinâmica e heterogeneidade na cultura.  Seu trabalho de campo tem se concentrado nas interações entre as várias culturas e na perspectiva de criação de culturas, especialmente das grandes entidades (tais como "nações").  Ele tem se empenhado nos últimos anos  na área de planejamento da cultura e sua relação com tais entidades de grande porte. Em fases anteriores do seu trabalho, ele contribuiu para o desenvolvimento de uma teoria polissistêmica de tradução, destinadas a atestar a tradução como uma atividade complexa e dinâmica regida pelo sistema de relações e não somente pelos parâmetros fixos dos recursos da linguagem comparativa.  Este foi, posteriormente, levado a estudos sobre a interferência literária, finalmente analisados em termos das relações interculturais.

Entre seus grandes trabalhos estão: Papers in Historical Poetics (1978);  Polysystem Studies (1990); e Papers in Culture Research ,  um livro eletrônico que inclui várias versões atualizadas de trabalhos anteriores e novas contribuições para a teoria e estudo da cultura.

Para um Curriculum Vitae detalhado , clique aqui .



Arquivo Cultura de Travesseiro
Educação como Reprodução da Sociedade
O Mito do Letramento – Angela Kleiman
Leitura e compreensão de texto falado e escrito como ato individual de uma prática social
A Teoria da Comunicação
Subjetividade da Fala - Benveniste
Oralidade e Letramento - Luiz Antônio Marcuschi

3 de março de 2011

Modelo Memorial Descritivo

Desde cedo a política fizera parte de minha vida. Tão logo completei meus estudos escolares passei a trabalhar com legisladores e, aos 20 anos, fui nomeada assessora parlamentar - cargo que desempenhei por mais de dez anos junto a Assembléia Legislativa do Estado. Após alguns anos servindo à política, finalmente chegou o momento do despertar, percebi que precisava de algo mais, necessitava aprender. Passei revista em minhas predileções, a fim de averiguar a qual curso estaria eu predisposta a me dedicar com fruição, para qual ‘saber’ eu mostrava aptidão fora a minha atual profissão – pensava que política fosse definitivamente minha carreira. A resposta foi imediata, indubitavelmente a leitura era o meu maior prazer e a linguagem o meu contexto, visto que vivia em meio a discursos - políticos em geral são exímios oradores. Então, entre história, sociologia e ciências políticas, optei por Letras, curso no qual reuniria língua, texto e minha paixão maior, literatura.

A literatura está presente em minhas mais remotas recordações. Lembro que quando criança Dorothy tornou-se minha heroína – coragem, determinação e bondade foram minhas primeiras noções de literatura. Apaixonei-me, já na 5° série, pelo Menino sem Pátria e seu violino, e descobri com Pollyanna, a menina que inventara o jogo do contente, que livros também fazem chorar. Recobradas as memórias infantas e associados os interesses maduros ingressei, aos 29 anos, no curso de Letras do Centro Universitário Ritter dos Reis.

Logo no primeiro semestre vi minhas expectativas diminuídas quando percebi que a proposta do curso era intrinsecamente voltada ao ensino, à formação de professores, e a possibilidade de estar à frente de uma sala de aula nunca me ocorrera, até então. Pensei em desistir, mas insisti e no segundo semestre vi reavivada minha certeza ao estudar Teoria da Literatura com a professora Rejane Pivetta. A alegoria da caverna me trouxe à luz. Aristóteles, verossimilhança, mimesis; narradores diversos, perfis psicológicos de personagens, conceitos primeiros que me apontaram o caminho. Acertei o rumo, determinei minha área de estudo e, semestre a semestre, fui envolvendo-me e atendendo ao chamado do poeta Drummond: penetra surdamente no reino das palavras.

Mas nem tudo são flores no caminho do conhecimento e assim, ao tempo em que me deleitava com estudos de que era favorável, via-me às voltas com novos conceitos e feliz assisti meus preconceitos gradativamente descolorirem-se. Relutei em aceitar de pronto os argumentos de Marcos Bagno, que insistia em “aprovar o errado”, mas,  ao participar como monitora do V Seminário de Linguagem, Discurso e Ensino, a palestrante Eni Orlandi significou-me a linguística e tornou visível a minha falta de clareza e compreensão acerca da complexidade da língua. Mais tarde, Marcuschi, Kleiman e Koch descortinaram a verdade e minha relação com a linguística tornou-se doce pelas aulas da professora Vera Pires, que não só me facilitou o entendimento, como também atestou a possibilidade de estudar Saussure, Benveniste e Bakhtin com deleite.

Também na literatura, área de minha adoção, encontrei percalços no caminhar, mas segui a trilha sem pestanejar, convicta que estava de que mais do que saber era preciso conhecer. Assim, tanto os incautos literatos portugueses Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco e Saramago, quanto o inconcebível Macunaíma foram importante para minha formação enquanto leitora e professora de literatura. O amargo ficou doce quando foram esses amenizados, contrabalanceados pela professora Regina Silveira ao propor-nos Machado de Assis, Mia Couto e, a salva portuguesa, magnânimo Camões. Ironicamente, nas aulas da professora Leny Gomes, vi Homero ser salvo por Dante, o Inferno a serviço da fatídica Ilíada. Ainda que tais leituras tenham me proporcionado poucos e rasos dissabores, cito-as por serem obras representativamente importantes ao meu processo evolutivo, pois a partir dessas leituras pude definir-me, pude apurar meu gosto, desenvolver minha capacidade crítica e argumentativa. Sem tais obras não as teria afinadas como hoje, creio que é importante provar os diversos sabores de que a literatura é capaz.

Ao gosto da literatura, no quarto semestre produzi o trabalho monográfico que reafirmaria minha área de estudo e tornaria real a possibilidade de um mestrado. A partir de um projeto de pesquisa iniciado no segundo semestre com o apoio da Professora Rejane Pivetta, no quarto semestre, desenvolvi a monografia titulada Século XXI - A presença de jovens escritores do Rio Grande Sul. No trabalho acadêmico realizei, ainda que recortadamente, a identificação dos novos escritores do nosso Estado – que, fora do cânone literário, movimentavam e renovavam a literatura -, pretendendo, assim, um levantamento sobre o fazer literário contemporâneo. Compreendia, mesmo que empiricamente, que a literatura podia ser estudada para além das obras literárias. Instintivamente atentara para a literatura vista como uma rede de relações, concebia-a de forma relacional e sistêmica, como mais tarde me orientaram Pierre Bourdieu e Itamar Even-Zohar. Não imaginava que essa seria a chave às portas que eu viria a abrir, a resposta a que me importunava Drummond: trouxeste a chave?

Já encantada com o Curso de Letras, mais uma vez presenciei minhas pré-concepções esmaecerem-se diante da proposta de trabalhar como educadora no ProJovem – São Leopoldo, programa do Governo Federal de incentivo a aprendizagem e qualificação de jovens. Mesmo com algumas restrições, visto que acreditava que o ensino não era minha vocação, aceitei e constatei que eu estava aparamentada de muitos conceitos, várias idéias, algumas teorias e pouca prática, ao que soletrei Paulo Freire. A experiência foi repleta de significados e importantes aprendizados. Pude averiguar a proporção exata do prejuízo conferido a esses jovens, então meus alunos, por conta de um sistema falho e arcaico de ensino, por conta de uma pedagogia, como muito bem definiu Fernando Becker, da reprodução do autoritarismo, da coação, da heteronímia, da subserviência, do silêncio, da morte da crítica, da criatividade, da curiosidade (2001).

Entre as três turmas que assumi, o meu saldo de alunos contava com noventa jovens. Uma quase centena de adolescentes sem perspectiva de futuro e sem nenhuma motivação para a sala de aula que não a promessa, desleal, de uma colocação no mercado de trabalho. Exemplos reais, vítimas da pedagogia do oprimido de que fala Paulo Freire. Coloquei em prática minhas lições e apliquei a proposta a que me orientaram os professores Flávio Lunardi e Neiva Tebaldi e que ali considerei e comprovei ser a mais eficaz - a análise linguística em detrimento à aula de gramática. Analisamos e entendemos textos de diversos gêneros, ao modo bakhtiniano. Estivemos em contato com a literatura através da biblioteca pública do município, a qual apresentei uma proposta de parceria e fui atendida com as honras do então secretário de cultura de São Leopoldo. Compartilhamos conhecimentos, produzimos nossos próprios textos e saímos, ainda que incertos diante do futuro, vitoriosos com o presente contextualizado que tecemos juntos.

Veni, vidi, vici. Saí convicta de que sala de aula é minha vocação e professora a minha mais nova profissão. Desde então, vejo-me sempre em volta de uma sala de aula. Além do estágio obrigatório no ensino fundamental, desenvolvi junto ao UniRitter a Oficina de Reforma Ortográfica e o Minicurso de Português: Produção do Texto Acadêmico, ambos para alunos de graduação, ambos desafios igualmente bem sucedidos.

Chegada ao sexto semestre, participei como bolsista voluntária de iniciação científica no projeto de Pesquisa Literatura e Produção de Conhecimento, com orientação da Professora Rejane Pivetta. Novos horizontes, novas perspectivas. A pesquisa oportunizou-me o contato com teorias e conceitos que me faltaram ao trabalho monográfico e com os quais convivi demoradamente, já que no início do ano de 2010 passei à bolsista titular da FAPERGS, dando continuidade ao projeto de pesquisa que edificou minha proposta de mestrado. A pesquisa de que falo foi a consagração de minhas buscas. Ao estudar autores da sociologia do conhecimento, minhas teorias e ideias de estudos literários foram se moldando às concepções de Boa Ventura de Souza Santos - e sua percepção de paradigmas dominantes nos estudos científicos - e Pierre Bourdieu, sociólogo que desvendou “as regras da arte”.

No último ano no Curso de Letras, a chave de que me perguntava Drumonnd revelou-se de ouro e as oportunidades, todas, eu aproveitei. Participei como membro da comissão julgadora do 5° Concurso Leve um Poema para a Feira, promovido pela editora Uniritter. Tive o privilégio de assistir ao Professor de Galiza Elias Feijó Torres, no curso de extensão Estudos Literário: novas possibilidades de aplicações culturais, aprimorando minhas concepções de literatura e de sistema cultural, alicerces de minha proposta de estudo no mestrado. Participei, ainda, pondo em teste meus dotes de oradora, dos salões de iniciação científica da UFRGS e do UniRitter, quando apresentei os resultados parciais da pesquisa Literatura e Produção de Conhecimento.

A consagração de meus esforços deu-se com a possibilidade de concorrer a uma bolsa para a pós-graduação. Reuni minhas capacidades adquiridas ao longo de todo o processo acadêmico e, orgulhosa, elaborei meu projeto de pesquisa para o mestrado. À luz dos conceitos advindos de teóricos como Bourdieu e Even-Zohar edifiquei minha proposta denominada Estratégia de atuação dos jovens escritores no sistema literário do Rio Grande do Sul. A literatura será finalmente diplomada como a minha área de estudo e, com esse projeto, pretendo investigar os fatores envolvidos na movimentação literária ocorrente no espaço sociocultural do Rio Grande do Sul, observando a literatura, como assertivamente pensei possível antes, como uma rede de sistemas que se estendem para além das obras. A minha pesquisa de mestrado buscará restabelecer as funções da literatura ao passo que possibilitará a compreensão das dinâmicas literárias. Para tal feito, recobrando minhas confissões aqui registradas, contarei com o apoio e a orientação daquela que desde o início desta descrição provou-se minha orientadora por excelência, mesmo desconhecendo a função, professora Rejane Pivetta.

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