1 de junho de 2009

Como Iniciar um Livro: Inícios Fabulosos


Existe um detalhe, um não, um é pouco visto que livros são repletos de detalhes, então, um dos detalhes que detem a minha atenção quando abro um livro, é o início. A frase, o parágrafo com que o escritor inaugura a sua obra é matéria instigante. Pensar dentre as infinitas possibilidades de se abordar um assunto, de iniciar um livro e a forma escolhida, é para mim um mistério. As minhas poucas e infecundas tentativas de escrever um romance foram por terra justamente aí, neste complexo “início” – o que pode o leitor atento presumir que “sequer” consegui principiar um livro.

Nas aberturas de vários romances,contos e diversificados textos literários somos confrontados com uma escolha importante que o escritor de ficção precisa fazer: como iniciar sua história, prender a atenção do leitor, e, ao mesmo tempo, introduzir seu protagonista, revelando a essência desta criatura em pouquíssimas palavras,ou melhor, em cingidos e cautelosos djetivos.

Como este assunto me é caro, selecionei alguns romances que "iniciam com essa magnitude toda" e vou transpô-los aqui, para ilustrar o que tento expor para vocês acerca da relevância deste trabalhoso "começo".

Principio com Nabokov e sua Lolita, ainda que o livro não me agrade, cuja abertura é das mais fantásticas que já tive a oportunidade de ler. A seguir transcrevo outros brilhantes começos. Fiquem atentos às magníficas construções e deleitem-se com estas fascinantes introdutórias criações.

Lembrando que, clicando sobre o título dos livros, vocês poderão "baixar" a obra completa. Aos que gostarem deste artigo, convido-os a colaborar com comentários e, se de fato quiserem participar, com outros inícios fabulosos de obras literárias.


LOLITA – Vladimir Nabukov
(Tradução Jorio Dauster)

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.
Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial. Num principado à beira-mar. Quando foi isso? Cerca de tantos anos antes de Lolita haver nascido quantos eu tinha naquele verão. Ninguém melhor do que um assassino para exibir um estilo floreado.
Senhoras e senhores membros do júri, o item número um da acusação é aquilo que invejavam os serafins – os desinformados e simplórios serafins de nobres asas. Vejam este emaranhado de espinhos
.



Notas do Subsolo –Fiódor Dostoievski
(Tradução Maria Aparecida Botelho Pereira Soares)

Sou um homem doente...sou mau. Não tenho atrativos. Acho que sofro do fígado. Aliás, não entendo bulhufas da minha doença e não sei com certeza o que é que me dói. Não me trato, nunca me tratei, embora respeite os médicos e a medicina. Além de tudo, sou supersticioso ao extremo; bem, o bastante para respeitar a medicina. (Tenho instrução suficiente para não ser supersticioso, mas sou) Não, senhores, se não quero me tratar é de raiva. Isso os senhores provavelmente não compreende. Que assim seja, mas eu compreendo. Certamente, não poderia explicar a quem exatamente eu atinjo, nesse caso, com minha raiva; sei perfeitamente que, não me tratando, não posso prejudicar os médicos; sei perfeitamente bem que, com isso, prejudico somente a mim e a mais ninguém. Mesmo assim, se não me trato, é de raiva. Se o fígado dói, que doa ainda mais.



O Grande Gatsby – Scott Fitzgerald
(Tradução Roberto Muggiati)

Em meus anos mais jovens e vulneráveis meu pai me deu um conselho que ficou na minha cabeça até hoje.
“Sempre que tiver vontade de criticar alguém”, me disse, “lembre-se de que nem todas as pessoas neste mundo tiveram as vantagens que você teve”.
Nada mais disse mas sempre fomos comunicativos de um modo incomum bastante reservado e percebi que ele queria dizer muito mais do que aquilo. Assim, inclino-me a guardar para mim todas as opiniões, um hábito que fez muitas naturezas curiosas se abrirem comigo e que também me transformou na vítima de não poucos chatos contumazes A mente anormal é rápida em detectar e se apegar a essa qualidade quando ela se manifesta numa pessoa normal e por isso ocorreu que na universidade fui injustamente acusado de ser político por ter acesso às mágoas secretas de homens turbulentos e desconhecidos.



No Caminho de Swann – Proust
(Tradução Mário Quintana)

Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Adormeço”. E, meia hora depois, despertava-me a ideia de que já era tempo de procurar dormir; queria largar o volume que imaginava ter ainda nas mãos e soprar a vela; durante o sono, não havia cessado de refletir sobre o que acabara de ler, mas essas reflexões tinham assumido uma feição um tanto particular; parecia-me que eu era o assunto de que tratava o livro: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V. Essa crença sobrevivia alguns segundos ao despertar; não chocava a minha razão, mas pairava-me como um véu sobre os olhos, impedindo-os de ver que a luz já não estava acesa. Depois começava a parecer-me ininteligível, como após a metempsicose, os pensamentos de uma existência anterior; o tema da obra destacava-se de mim, ficando eu livre para adaptar-me ou não a ele; em seguida recuperava a vista, atônito de encontrar em derredor uma obscuridade, suave e repousante para os olhos, mas talvez ainda mais para o espírito, ao qual se apresentava como algo sem causa, incompreensível, algo de verdadeiramente obscuro. Indagava comigo que horas seriam; ouvia o silvo dos trens que, ora mais, ora menos afastado e marcando as distâncias como o canto de um pássaro numa floresta, me descrevia a extensão do campo deserto, onde o viajante se apressa em direção à parada próxima: o caminho que ele segue lhe vai ficar gravado na lembrança com a excitação produzida pelos lugares novos, os atos inabituais, pela recente conversa e as despedidas trocadas à luz de lâmpada estranha que ainda o acompanham no silêncio da noite, e pela doçura próxima do regresso.



O Caçador de Pipas – Khaled Hosseini
(Tradução Maria Helena Rouanet)

Eu me tornei o que sou hoje aos doze anos, em um dia nublado e gélido do inverno de 1975. Lembro do momento exato em que isso aconteceu, quando estava por detrás de uma parede de barro parcialmente desmoronada, espiando o beco que ficava perto do riacho congelado. Foi há muito tempo, mas descobri que não é verdade o que dizem a respeito do passado, essa história de que podemos enterra-lo. Porque, de um jeito ou de outro, ele sempre consegue escapar. Olhando para trás, agora, percebo que passei os últimos vinte e seis anos da minha vida espiando aquele beco deserto.





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22 comentários:

  1. Amei, diz um amigo que sou de amar e não só de gostar. Poucos tem a sensibilidade de perceber quanto os começos são difíceis e importantes, tenho a acrescentar que não são só dos livros, mas em tudo que se há de fazer.

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  2. ...desculpa, esqueci de assinar o comentário.
    Beijão.
    Sil.

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  3. Bem legal, serve de incentivo a novos leitores!
    Parabéns!

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  4. muito fantástico! Muito bom essa matéria sobre inicio dos livro, pra mim foi ótima, pois ando escrevendo alguns livros, romances e contos de fantasia medieval, e quero caprixar! se quiser dar uma olhada em um breve rascunho, acesse http://fabulaperdida.blogspot.com

    parabéns pelo blog!

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  5. Muito bem escolhidos os romances! Parabéns, trarei outros começos. E concordo com você quando diz que começar é semrpe difícil!
    Até,

    Isabel

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  6. Olá Érico, certamente irei dar uma olhada em seus textos, adorei a idéia dos contos de fantasia medieval. Quanto ao artigo, como disse a amiga Sil (no comentário a cima), começar é sempre difícil...
    Obrigada pela participação e SUCESSO!

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  7. Isabel, quero que traga mesmo outros começos para compartilhar conosco. Obrigada pela participação. BJS

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  8. Valeu Paulo, obrigada pela participação e visita. BJS

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  9. boa abordagem essa dos inícios..
    sem dúvida, há vários livros que já embalam no começo, forte atrativo enquanto outros, nos embalam ao longo das páginas..cada um com seu suspense!

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  10. Muito interessante!! Partilhamos do mesmo pensamento sobre inícios de livro!!! Gostei mesmo!! Entre os que já li, um dos inícios mais envolventes é do livro A montanha e o rio. Da Chen. O livro todo é ótimo, mas o início é fabuloso!!!
    Vívian Marçal.

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  11. Vívian, muito bom o teu comentário. Acredito que a oportunidade de trocar informações, partilhar conhecimentos e opiniões é o principal incentivo para que se mantenha um blog. Adorei sua colocação sobre a montanha e o rio. Não conheço o livro, mas certamente vou buscá-lo. Obrigada pela sua valiosa participação.
    BJS

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  12. Recomendo: E A História Começa - Amós Oz

    Dez brilhantes inícios de clássicos da literatura universal.

    abraço,Regina

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  13. Se há família "palavreira" que me faça tinir o palato, a "fabulosa" é das principais. Precisei de dizer isto porque, ultimamente, tenho tido poucos confrontos com a realidade que me façam accionar o detector de "fabulosus". Chegado aqui, não só a palavra me saltou para o colo, como todo o conteúdo do post me causou aquela comichãozinha que leva a ter saudades de ler um livro fabuloso. Vou buscar um. Tchau. Obrigado.

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  14. Que bom querido Marinho, bom que gostaste do título e do post. Boa leitura e obrigada pela visita e pela participação "fabulosa"...
    Abraços

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  15. Adorei o post!
    É verdade mesmo que o começo de um livro é fundamental para nos despertar interesse. Cada autor tem seu estilo e eu adoro ler os parágrafos iniciais, mas confesso que muitos não conseguem me instigar a ponto de eu continuar lendo.
    Daí a importância das primeiras frases.
    Eu ando escrevendo um livro, que pretendo publicar um dia, mas ainda não tinha parado para pensar mesmo se o início estava bom. Muito obrigada!
    E adorei o blog, parabéns!

    Nicole

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  16. Amei seu jeito descontraido de escrever.
    Parabéns!
    Escreva mais!!!

    Deb.

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  17. Eis o início de "Os Cadernos de Malte Laurids Brigge", de Rainer Maria Rilke. Trad. Lya Luft


    Então é aqui que as pessoas vêm viver; eu antes diria que aqui se vem morrer. Hoje saí de casa. E vi: hospitais. Vi um homem cambalear e cair. As pessoas rodearam-no, poupando-me o resto. Vi uma mulher grávida. Arrastava-se pesadamente ao longo de um muro alto e quente, que por vezes apalpava como para certificar-se de que ele ainda estava ali. Estava. E por trás dele? Procurei no meu roteiro: Maison d'Accouchement. Muito bem. Vão partejá-la ali. Nada se opõe a isso. Adiante, rue Saint-Jacques, um edifício grande, com uma cúpula. Meu mapa indicava Val-de-Grâce, Hôspital Militaire. Na verdade nem precisava dessa informação, mas não importa. A rua começou a cheirar mal por todos os lados. Até onde se podia distinguir, cheirava a iodofórmio, a gordura de pommes frites, cheirava a medo. Todas as cidades cheiram mal no verão. Depois vi uma casa singularmente cega, de uma cegueira fixa. Não a encontrei em meu mapa, mas sobre a porta estava escrito, ainda bem legível: Asyle de Nuit.
    Ao lado da entrada, os preços expostos. Li todos. Não era caro.
    Que mais? Uma criança num carrinho de bebê parado: era gorda, esverdinhada, com uma nítida erupção na testa, em fase de cura, já não doía mais. A criança dormia, boca aberta respirando iodofórmio, pommes frites, medo. As coisas simplesmente eram assim. O importante era estar vivo. Sim, era isso o importante.

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  18. Prezada Ângela:

    Creio que deverias continuar esse texto com outros inícios formidáveis, como o início de Moby Dick : "Chamai-me Ismael. Há alguns anos - quantos precisamente não vem ao caso - tendo em pouco ou nenhum dinheiro na carteira e sem nenhum interesse em terra, ocorreu-me navegar por algum tempo e ver a parte aquosa do mundo"

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  19. EU SOU EDNA ORNELA, JA TENHO DOIS LIVROS ESCRITOS, NÃO OS EDITEI, E ESTOU COMEÇANDO O TERCEIRO RAZÃO POR EU ESTAR VISITANDO ESTE LOCAL,QUERO UM INICIO QUE CHAME A TENÇÃO DOS MEUS LEITORES.
    O TERCEIRO ESTOU EM PESQUISA É UM ROMANCE VAI SE PASSSAR NO ANO 1552 COM UMA JOVEM Q VAI CONTRA OS PENSAMENTOS E DESEJOS DE SEU PAI.
    SE QUISER CONHECER MAIS DO MEU TRABALHO POR FAVOR MANDE-ME UM EMAIL EDNAMARI.NET@HOTMAIL.COM

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  20. Particularmente, foi um luz no fim do túnel este artigo. Amei! Sinceramente, eu agradeço pela iniciativa. Até mais!

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  21. Gostei das suas maravilhosas dicas. Estive pesquisando sobre como fazer a abordagem inicial do meu primeiro livro. Parabens.

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  22. Olá!
    Cheguei aqui através de um comentário que vc deixou no blog Mundo Livro.

    É realmente interessante esse assunto de primeira frase. Eu li que alguns escritores não começam assim, escrevem o segundo capítulo, ou o meio do livro e depois retornam para montar o "cartão de visita" da obra.

    Na semana passada li um livro de Amós Oz que fala sobre os "dez brilhantes inícios de clássicos da literatura universal", é bom. Outro que também trata desse tema é "Para Ler
    Como um Escritor", de Francine Prose, outra pérola de livro. Ambos estão sempre por perto, não resolvem o problema da primeira frase, mas inspiram e iluminam ideias.

    Beijos

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