28 de novembro de 2010

A FUNÇÃO DA ESCOLA


Artigos desta matéria:
1. A Função da Escola
1.1 Escola como Redentora da Sociedade
1.2 Escola como Reprodutora da Sociedade
1.3 Escola como Transformação da Sociedade





Fazer uma reflexão crítica sobre a função e o papel que a escola ocupa na sociedade contemporânea é, antes, refletir sobre as formas de agir do professor no contexto das práticas pedagógicas. A formação docente precisa incluir, cada vez mais, a crítica epistemológica (BECKER, 2001) em suas práticas profissionais, a fim de pensar o seu papel na escola contemporânea e a sua ação enquanto agente social ativo.

Uma das práticas mais destacadas que diferenciam o homem de outros animais é a longa duração da infância. Delval (1998), sobre a função do ensino, dispõe que, embora o homem nasça em estado de imaturidade, possui uma disposição para aprender. Nascemos com uma série de disposições inatas que serão desenvolvidas dependendo do meio, tanto físico quanto social, em que seremos criados, logo, o desenvolvimento humano não pode ser concebido sem a existência de uma sociedade (DELVAL, p.17).

Nas sociedades primitivas, a educação ficava por conta dos adultos, que eram responsáveis por transmitir a cultura da sociedade aos jovens que, por sua vez, tornavam-se adultos tão iguais aos seus "educadores" quanto possível. Assim, a educação tinha um papel de manutenção da ordem social, cuidando para que a sociedade mudasse o mínimo possível. As mudanças passam a ocorrer somente em função do progresso, que mais tarde surge e reflete na educação.

Durante séculos a cultura foi patrimônio de poucos. As escolas primeiras eram frequentadas somente por aqueles predestinados a ocupar determinadas funções sociais e, além de transmitir conhecimentos, era função da escola, preservar os valores e os fins da sociedade, objetivando que cada indivíduo ficasse limitado a ocupar as posições sociais em que nasceram. Pensando assim, acreditavam que a educação igualitária e abrangente seria prejudicial à sociedade e, somente com o Iluminismo, no século XVIII, passa-se a pensar em igualdade entre os homens e, consequentemente, em um ensino ao alcance de todos. Tais ideais não foram possíveis na época, pois não correspondiam às necessidades sociais do momento, mas serviram para que, nos fins do século XVIII, muitas vozes se levantassem a favor da implementação de um ensino institucionalizado para todos.

Mas somente no início do século XIX é que começa a implantação do ensino obrigatório, e ainda em meio a muita polêmica. Muitos argumentavam que, quando são proporcionados conhecimentos a indivíduos de classe baixa, a tendência provável é que esses aspirem modificar o lugar que lhes cabe na sociedade (1) , acarretando conflitos e alterações na ordem social. Com a industrialização, a jornada de trabalho, assim como a necessidade de mão de obra, aumenta, e as crianças e jovens tornam-se um problema, pois precisam de um lugar para ficar e algo com o que se ocupar enquanto seus pais trabalham. Assim, preocupados em não conseguir controlar a esses grupos de crianças e adolescentes ‘desocupados’, largados a própria sorte, e, percebido que a escola, ao contrário do que se pensava, poderia ser um utilitário institucional mantenedor da 'ordem social', é implantado o ensino obrigatório.

A escola que surge não é a aceitação das ideias e dos ideais vislumbrados por filósofos e pedagogos, é antes o resultado das necessidades econômicas e sociais. O conhecimento ocupava um lugar secundário na escola, ficando a transmissão de valores morais e religiosos em primeiro plano, predominando, ainda, o papel da escola como instrumento de solidificação da ordem social (DELVAL, p.20-21).

Nos fins do século XIX, iniciou-se o movimento de reforma da escola. O pressuposto era que a escola atendesse às necessidades das crianças e se preocupasse em transmitir os conhecimentos científicos e tecnológicos, capacitando a sociedade para as novas linhas de trabalho. Em outras palavras, a reforma constituía um movimento de ajuste social. Surgem, conseguintemente, outros movimento de evolução educacional, entre ele, a “educação libertadora” que critica a ação passiva dos alunos que, dentro da escola, ficam restritos a posição de simples ouvintes - a função da escola é formar indivíduos livres, a educação deve libertar o indivíduo.

A educação, podemos inferir, está eivada de sentidos, valores, conceitos e finalidades que a norteiam desde os seus primórdios. O sucinto estudo diacrônico representado até então, torna visível, e óbvia, a compreensão da interligação consonante entre ensino e sociedade no seu percurso evolutivo. Mas que sentido pode ser dado à educação, como um todo, dentro da sociedade? A resposta a essa indagação configura os diferentes grupos, ou melhor, as diferentes tendências filosóficas de interpretação do papel da educação na sociedade, nos seus diferentes estágios evolutivos. As principais tendências são expressas pelos seguintes conceitos: educação como redenção (leia qui); educação como reprodução; e educação como transformação da sociedade (SAVIANI, 1987).
                                                                                                Angela Francisca  Mendez de Oliveira


(1) Concepção que lembra muito o livro "Admirável mundo novo", no qual Huxley faz uma metáfora às sociedades e as suas 'formas' de manutenção. O indivíduo é pré-destinado a ocupar certa posição na sociedade de ‘classes’, determinada e resguardada pelo sistema, sem que possa, o 'cidadão’, alterar essa ordem. Tal como na fábrica alegórica brilhantemente criada por Huxley.




Referências
DELVAL, Juan. Crescer e Pensar. POA: Artmed, 1998.
SAVIANI, Dermeval. Escola e Democracia. SP: Cortez, 1987.
BECKER, Fernando. Educação e Construção do Conhecimento. POA: Artmed, 2001.
BECKER, Fernando. O que é Construtivismo? Disponível em:

Arquivo Cultura de Travesseiro:
Educação como Redenção da Sociedade
Educação como Reprodução da Sociedade
Educação como Transformação da Sociedade
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