18 de dezembro de 2010

Curso de Linguística Geral

O estruturalismo de Saussure, podemos dizer, assume uma perspectiva dicotômica, pois ao definir o objeto de estudo da linguística, enquanto ciência, o teórico deparou-se com algumas bifurcações na delimitação da matéria. A primeira diz respeito à dicotomia língua/fala e a segunda à diacronia/sincronia.

Da primeira, Saussure argumenta que para se realizar um estudo da linguística, enquanto área da ciência, a língua deve ser privilegiada, deixando a fala para um estudo posterior, apartado. Surgem, então, alguns conceitos saussurianos, tais como linguagem, língua, fala, signo, significado e significante:

                                      FALA

LINGUAGEM =                +                                          SIGNIFICADO

                                      LÍNGUA =              SIGNO =             +

                                                                                       SIGNIFICANTE

Na segunda bifurcação, nos deparamos com a opção pelo estudo diacrônico ou sincrônico da língua (já que da primeira questão a língua foi a privilegiada), optando Saussure pelo estudo sincrônico, definido que a diacronia está mais associada a fala. Da sincronia surge os conceitos de sincronia sintagmática e sincronia paradigmática.

                                                                              SINTAGMA

LINGUA =                      ESTUDO =
                                        SINCRÔNICO         
                                                                             PARADIGMA

Acompanhando o raciocínio de Saussure, veremos as especificidades de cada elemento e os argumentos que o linguista apresenta para justificar as suas opções. As dicotomias de Saussure mais fecundas, podemos dizer, constituem-se nessas apresentadas: FALA/LÍNGUA - DIACRONIA/SINCRONIA.


 LINGUAGEM                                                                                      
Para Saussure a linguagem tem um lado individual e um lado social (p. 16), é um todo multiforme, pois implica ao mesmo tempo um sistema estabelecido e uma evolução, é um aglomerado confuso de coisas heteróclitas, impossível, então, de se configurar um sistema. A linguagem, então, podemos inferir, é o conjunto da língua e da fala, uma vez que sua característica multiforme reúne as qualidades de ambas. Na visão de Saussure, a linguagem não serve como objeto de estudo da ciência linguística, pois além de não poder ser sistematizada, tendo em vista seu caráter multíplice, a linguagem poderia, ainda, ser analisada por diferentes perspectivas - um verdadeiro cavaleiro de diferentes domínios - pois, vista como um todo, pode ser reivindicada, enquanto matéria de estudo, por várias ciências outras, como a psicologia, filologia etc.
A língua e a fala são, então, aspectos dicotômicos da linguagem e para  construir os princípios da ciência linguística, Saussure acreditou ser necessário definir um objeto único e autônomo para análise, optar por uma visão, uma perspectiva, a fim de configurar um sistema que fosse objeto específico da linguística. A língua foi o foco de estudo de Saussure, pois a linguagem, como vimos, não se prestava a análise: era ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica, além de pertencer ao domínio individual.

FALA                                                                                                   
Como vimos, a linguagem, segundo Saussure, é formada por dois aspectos: a fala e a língua. Uma vez que cada qual tem características diversas, essas acabam por configurar o caráter de dualidade à linguagem que a torna impossível para o estudo que pretende Saussure. A fala é a utilização da língua, vem antes da língua e a faz evoluir. Por seu caráter individual, momentâneo e heterogêneo torna-se assistemática, não servindo, ainda, como objeto de estudo da ciência que Saussure busca estipular. A fala, ao contrário da língua, por se constituir de atos individuais, torna-se múltipla, imprevisível, irredutível a uma pauta sistemática. Os atos linguísticos individuais são ilimitados, não formam um sistema. Assim, a língua é privilegiada por Saussure, que diz que para se solucionar  todas essas dificuldades dicotômicas é necessário colocar-se primeiramente no terreno da língua e tomá-la como norma de todas as outras ações da língua. De fato, entre tantas dualidades, somente a língua parece suscetível duma definição autônoma e fornece um ponto de apoio satisfatório para o espírito (p.17). Vejamos algumas características apontadas por Saussure que diferenciam a fala da língua:






LÍNGUA                                                                        
Língua é uma parte determinada da linguagem, mas ao contrário desta, constitui um todo em si e um princípio de classificação, desde que lhe demos o primeiro lugar entre os fatos da linguagem. A língua constitui algo adquirido e convencional, ao passo que a linguagem repousa numa faculdade que nos é dada pela natureza. Do exame do Curso, depreendemos três concepções para língua: acervo linguístico, instituição social e realidade sistemática e funcional.

A língua, como acervo linguístico, é o conjunto dos hábitos linguísticos que permitem a uma pessoa compreender e fazer-se compreender (p. 92). A língua é uma soma de sinais depositados em cada cérebro, mais ou menos como um dicionário cujos exemplares, todos idênticos, fossem repartidos entre os indivíduos (p. 27).  Na condição de acervo, a língua guarda consigo toda a experiência histórica acumulada por um povo durante a sua existência. Disso nos dá testemunho o latim, símbolo permanente da cultura e das instituições romanas. Também o português, nos seus oito séculos de existência, acumulou um rico e notável acervo linguístico e literário.

Como instituição social, a língua não está completa em nenhum [indivíduo], e só na massa ela existe de modo completo (p. 21), por isso, ela é, simultâneamente, realidade psíquica e instituição social. Para Saussure, a língua é, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos (p. 17); é a parte social da linguagem, exterior ao indivíduo, que, por si só, não pode nem criá-la nem modificá-la; ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade (p. 22).

A visão da língua como realidade sistemática e funcional é o conteúdo mais importante da concepção saussuriana. Para o linguista, a língua é, antes de tudo, um sistema de signos distintos correspondentes a ideias distintas (p. 18); é um código, um sistema onde, de essencial, só existe a união do sentido e da imagem acústica (p. 23). Saussure vê a língua como um objeto de “natureza homogênea” (p. 23) e que, portanto, se enquadra perfeitamente na sua definição basilar: a língua é um sistema de signos que exprimem ideias (p. 24).

Para Saussure, ao outorgar à ciência da língua seu verdadeiro lugar no conjunto do estudo da linguagem, situamos ao mesmo tempo toda a linguística (p.26). E segue afirmando que todos os outros elementos da linguagem, que constituem a fala, vêm por si mesmos subordinar-se a esta primeira ciência. Por isso, o estudo da linguagem é dividido, para Saussure, em duas partes: a língua e a fala (linguística da língua e linguística da fala, capitulo IV), cumpre escolher entre os dois caminhos impossíveis de trilhar ao mesmo tempo; devem ser seguidos separadamente (p.28).
SIGNO =  SIGNIFICADO + SIGNIFICANTE                                  
Para Saussure a língua é representada por signos linguísticos. Segundo o linguista, o signo linguístico é  uma unidade psicológica de duas faces: uma imagem acústica e um conceito. A imagem acústica seria correspondente à forma verbal arquivada na memória, o que mais comumente se concebia como uma unidade da língua. Seria a parte mais concreta do signo por sua natureza sensorial, mais próxima dos sentidos. O conceito seria o significado do signo de um modo mais abstrato e, em certo sentido, mais próximo da referência. Para tornar o conceito de signo linguístico mais técnico, Saussure concebeu dois termos correspondentes a suas facetas:

 IGNIFICANTE = imagem acústica

SIGNIFICADO = conceito

Para solidificar este conceito de signo, formulou dois princípios: o da arbitrariedade e o da linearidade do significante. Significado e significante, segundo o primeiro princípio, se relacionariam de forma arbitrária. Ou seja, não haveria uma relação motivacional entre significado e significante. Não haveria, portanto, nenhuma relação natural entre a ideia de “mar” (o significado), por exemplo, como ele se constitui na realidade, e a sequência de sons m-a-r (o significante). O signo, dessa forma, depende da convencionalização, o que se dá como processo social, não estando, neste caso, ao alcance do indivíduo o poder de o estabelecer ou alterá-lo. O segundo princípio era o de que o significante, de uma natureza auditiva, ocorre no tempo numa ordem linear.

Dentro dessa concepção é bastante aceitável a correlação entre a imagem acústica de uma unidade sonora da língua, o fone, e sua contraparte significativa, os traços distintivos, formando, assim, o fonema. O mesmo vale para as unidades morfossintáticas, isto porque, até o nível da frase, a correlação é sempre de um para um, em se tratando de significado e significante, e a variação de uso é muito pequena. Com relação ao gênero, entretanto, é difícil se conceber que a “conformação característica” relacionada a uma “utilidade social” possam ser qualificadas como significante e significado, mesmo que seja bastante plausível.

Considerações
A visão saussuriana de língua se dá a partir de sistema num recorte sincrônico. Saussure concebia a língua como um fenômeno social, mas analisava-a como um código e um sistema de signos, apartada da fala, ou seja, importava-lhe o sistema e não o aspecto de sua realização na fala ou no seu funcionamento em textos que configuram ações sociais em verdade.

Para Saussure língua e fala constituem uma dicotomia, já para Marcuschi e Koch, linguistas atuais adeptos à visão bakhtiniana, não pode se postular entre ambas uma dicotomia de polaridades absolutas, mas antes um continnum, pois, na visão bakhtiniana de linguagem, considerar a fala como fenômeno individual e o sistema linguístico como social, como se fossem dois pólos opostos como quer Saussure, é errôneo. Bakhtin recusa-se a separar o individual do social, explica Marcuschi (2008).

Para Bakhtin (2003), a visão saussuriana, a-social e abstrata, postula a linguagem como um sistema estável e imutável de elementos linguísticos idênticos a eles mesmos que pré-existem ao indivíduo falante, a quem não resta alternativa a não ser reproduzi-los.

A meu ver, ao se ocupar da língua, a necessidade de escolha não impediu Saussure de admitir a importância dos estudos da fala. Embora conceda como dicotômicas as relações entre fala e língua, o próprio Saussure autoriza algum olhar entre “língua e fala” como uma 'espécie' de continnum, o que podemos considerar que os estudos de Saussure configuram um primeiro estudo, feito com o propósito de fixar a linguística como ciência. Assim como tudo é mutável e evolui, inclusive a língua, é natural e saudável que surjam novas perspectivas e acertos teóricos, como fez Benveniste, Bakhtin e, se a ciência seguir seu rumo evolutivo, outros bons linguistas farão.


ESTUDO SINCRÔNICO DA LÍNGUA =
SINTAGMA E PARADIGMA
Para Saussure, havia duas formas da ciência linguística observar a língua: em sua época e através do tempo. O único problema da Linguística, com relação a este ponto, seria justamente o fato da língua ocorrer, ao mesmo tempo, em seu tempo e ao longo dele. A língua, ao mesmo tempo em que ocorre no presente relacionando ideias e formas de modo aparentemente estático, atualiza-se, passando do presente ao passado. Sua ocorrência se dá numa série de sucessões de estados linguísticos, através do tempo. Desta forma, a linguística se obriga a empregar dois pontos de vista, aparentemente dissociáveis, para analisar um mesmo objeto.

Para o cientista linguístico compreender a língua e sua relação com o sistema é dispensável que se dedique a investigar o modo e os motivos pelos quais a língua observada alcançou a forma em uso no momento de sua observação. Essa visão estática, desvinculada das ocorrências anteriores que se deram ao longo do tempo, é uma visão sincrônica. Uma abordagem diacrônica, retomando o jogo de xadrez, seria aquela que permitiria ao observador conhecer cada lance da partida até que as peças assumissem a posição atual. Tal observação o daria informações sobre as ocorrências. Sobre como um movimento de uma peça levou a outro sucessivamente e não mais sobre a situação atual do jogo. O objeto, forçosamente, deixaria de ser a situação para ser a evolução; funcionamento e processo histórico.

Desta forma, definiu o linguista que seria mais pertinente observar a língua sob o aspecto sincrônico do seu funcionamento, que do aspecto diacrônico para se obter como efeito uma melhor compreensão do mecanismo linguístico.

SINCRONIA                                                                                      
A sincronia é o eixo em que se estabelecem as relações de significação entre os diversos significantes da língua. Esse eixo é estático até que uma alteração diacrônica provoque uma alteração no estado sincrônico da língua. O significante “você” tem sua significação estabelecida pela oposição aos outros significantes do português corrente (p. ex. “eu”, “ele”).

Saussure considera prioritário o estudo sincrônico porque o falante nativo não tem consciência da sucessão dos fatos da língua no tempo. Para o indivíduo que usa a língua como veículo de comunicação e interação social, essa sucessão não existe. A única e verdadeira realidade tangível que se lhe apresenta de forma imediata é a do estado sincrônico da língua. Além disso, como a relação entre o significante e o significado é arbitrária, estará continuamente sendo afetada pelo tempo, daí a necessidade de o estudo da língua ser prioritariamente sincrônico. Sirva de exemplo o substantivo romaria, que significava originalmente “peregrinação a Roma para ver o Papa”. Hoje, no entanto, é usado unicamente para designar “peregrinação religiosa em geral”. Hoje, por exemplo, são muito comuns as romarias a Aparecida do Norte, em São Paulo.

DIACRONIA                                                                                 
A diacronia é o eixo em que acontecem as modificações da língua no decorrer da história. Por exemplo: “vossa mercê” transformou-se em “vosmicê” que transformou-se em “você”. Obviamente, isso me remete à ideia de condensação em Freud. Dois significantes que permanecem até hoje em nossa língua se condensaram num só que exerce função diversa dos significantes a partir dos quais foi engendrado. Isso, por conta de uma alteração fonética, como o exemplo dado faz notar bem. É na efetividade histórica da fala, e para “facilitação” da fala, que ocorrem essas alterações.

Considerações
Os dois eixos (sincrônico e diacrônico) são portanto transversais. Seguindo pelo eixo diacrônico podemos percorrer a história de uma língua, encontrando os diversos estados sincrônicos que já se estabeleceram.

Saussure postula a prioridade da sincronia, mas convém lembrar que prioridade não significa exclusividade. Entendo a distinção sincronia / diacronia unicamente como procedimentos metodológicos de análise linguística, uma vez que Saussure buscava definir um objeto de estudo para a linguística e para tanto ponderou ser, no momento, a língua e a sincronia perspectivas mais sólidas e estáveis para se estudar. A esse respeito, ouçamos as ponderações, até certo ponto premonitórias, do próprio Saussure (p. 16):

A cada instante, a linguagem implica ao mesmo tempo um sistema estabelecido e uma evolução: a cada instante, ela é uma instituição atual e um produto do passado
A língua, portanto, será sempre sincronia E diacronia em qualquer momento de sua existência. O ponto de vista da ciência linguística é que poderá ser ou sincrônico ou diacrônico, dependendo do fim que se pretende atingir. E há determinados casos, por exemplo, em que a descrição sincrônica pode perfeitamente ser conjugada com a explicação diacrônica, enriquecendo-se, desse modo, a análise feita pelo linguista. Por exemplo, podemos descrever o verbo pôr como pertencente à segunda conjugação, apelando para as formas sincrônicas atuais pões, põe, puseste, etc., além dos adjetivos poente e poedeira, nos quais o -e- medial aí existente (ou remanescente) funciona estruturalmente como vogal temática. Ao mesmo tempo, podemos enriquecer a descrição sincrônica, complementando-a com a explicação diacrônica: o atual verbo pôr já foi representado pelo infinitivo arcaico poer, que, por sua vez, se vincula ao latim vulgar ponere, com a seguinte cadeia evolutiva: poněre > ponēre > poner > põer > poer > pôr.

Encarados sob essa perspectiva, os pontos de vista sincrônico e diacrônico não são excludentes, ao contrário, são complementares. Seja como for, vale registrar que Saussure, deixando de se preocupar com o processo pelo qual as línguas se modificam, para tentar saber o modo como elas funcionam, deu, coerentemente, primazia ao estudo sincrônico, ponto de partida para a Linguística Geral e o chamado método estruturalista de análise da língua.

SINTAGMA                                                                                      
Para Saussure, tudo na sincronia se prende a dois eixos: o associativo (= paradigmático) e o sintagmático. As relações sintagmáticas baseiam-se no caráter linear do signo linguístico, que exclui a possibilidade de pronunciar dois elementos ao mesmo tempo (p. 142). A língua é formada de elementos que se sucedem um após outro linearmente, isto é, “na cadeia da fala”. À relação entre esses elementos Saussure chama de sintagma.

Como a relação sintagmática se estabelece em função da presença dos termos precedente e subsequente no discurso, Saussure a chama também de relação in præsentia.

Colocado na cadeia sintagmática, um termo passa a ter valor em virtude do contraste que estabelece com aquele que o precede ou lhe sucede, “ou a ambos”, visto que um termo não pode aparecer ao mesmo tempo que outro, em virtude do seu caráter linear. Em “Hoje fez calor”, por exemplo, não podemos pronunciar a sílaba je antes da sílaba ho, nem ho ao mesmo tempo que je; lor antes de ca, ou ca simultaneamente com lor é impossível. É essa cadeia fônica que faz com que se estabeleçam relações sintagmáticas entre os elementos que a compõem.

Por outro lado, fora do discurso, isto é, fora do plano sintagmático, se, em “Hoje fez calor”, dizemos hoje pensando opô-lo a outro advérbio, ontem, por exemplo, ou fez em oposição a faz, e calor a frio, estabelecemos uma relação paradigmática associativa ou in absentia, porque os termos ontem, faz e frio não estão presentes no discurso. São elementos que se encontram na nossa memória de falante numa série mnemônica virtual, conforme esclarece Saussure na pág. 143 do CLG. Define-se o sintagma como a combinação de formas mínimas numa unidade linguística superior.

Trata-se, portanto, de relações (relação = dependência, função) onde o que existe, em essência, é a reciprocidade, a coexistência ou solidariedade entre os elementos presentes na cadeia da fala. Essas relações sintagmáticas ou de reciprocidade existem, a nosso ver, em todos os planos da língua: fônico, mórfico e sintático, ao contrário do que deixa entrever a definição do próprio Saussure, que nos induz a conceber o sintagma apenas nos planos mórfico e sintático.

Sendo assim, o sintagma, em sentido lato, é toda e qualquer combinação de unidades linguísticas na sequência de sons da fala, a serviço da rede de relações da língua. Por exemplo, no plano fônico, a relação entre uma vogal e uma semivogal para formar o ditongo (ai /ay/); no nível mórfico, a própria palavra, com seus constituintes imediatos, é um sintagma lexical (am + a + va + s); sintaticamente, a relação sujeito + predicado caracteriza o sintagma oracional (Pedro / estudou a lição.).

PARADIGMA                                                                                   
O paradigma é assim uma espécie de “banco de reservas” da língua, um conjunto de unidades suscetíveis de aparecer num mesmo contexto. Desse modo, as unidades do paradigma se opõem, pois uma exclui a outra: se uma está presente, as outras estão ausentes. É a chamada oposição distintiva, que estabelece a diferença entre signos como gado e gato ou entre formas verbais como estudava e estudara, formados respectivamente a partir da oposição sonoridade / não-sonoridade e pretérito imperfeito / mais-que-perfeito. A noção de paradigma suscita, pois, a ideia de relação entre unidades alternativas. É uma espécie de reserva virtual da língua.

Uma Visão Estilística: No plano da expressão, as relações paradigmáticas operam com base na similaridade de sons. É o caso das rimas (“Mas que dizer do poeta / numa prova escolar? / Que ele é meio pateta / e não sabe rimar?”, Carlos Drummond de Andrade), aliterações (“Vozes veladas, veludosas vozes”, Cruz e Sousa), assonâncias (“Tíbios flautins finíssimos gritavam”, Olavo Bilac), homoteleutos [ou homeoteleutos] (“Rita não tem cultura, mas tem finura”, Machado de Assis). No plano do conteúdo, as relações paradigmáticas baseiam-se na similaridade de sentido, na associação entre o termo presente na frase e a simbologia que ele desperta em nossa mente. É o caso da metáfora: “O pavão é um arco-íris de plumas.” (Rubem Braga), ou seja, arco-íris = semicírculo ou arco multicor. Embora presente no texto em prosa, a metáfora é mais usual na poesia.

Já a metonímia, mais comum na prosa, por basear-se numa relação de contiguidade de sentido, atua no eixo sintagmático. Ex.: O autor pela obra: “Gosto de ler Machado de Assis”; a parte pelo todo: “Os desabrigados ficaram sem teto” (= casa); o continente pelo conteúdo: “Tomei um copo de vinho” (o vinho contido no copo), etc.

Conclusão
A visão saussuriana da língua como um sistema de valores está intimamente associada à sua célebre frase: “na língua só existem diferenças”, ou seja , ela funciona sincronicamente e com base em relações opositivas (paradigmáticas) no sistema e contrastivas (sintagmáticas) no discurso. Tendo como ponto de partida as ideias motrizes contidas no Curso de linguística geral, formaram-se várias escolas estruturalistas (fonológica de Praga, estilística de Genebra, funcionalista de Paris, glossemática de Copenhague), que deram consequência e continuidade ao pensamento infelizmente inacabado do genial fundador da Linguística moderna.

A visão da língua como um sistema semiológico, a teoria do signo, com seus dois princípios fundamentais: arbitrariedade / linearidade, a diferença entre sincronia (funcionamento) e diacronia (evolução), a distinção fonética / fonologia, fone / fonema, a dupla articulação da linguagem (1ª = plano do conteúdo ou morfossintaxe; 2ª = plano da expressão ou fonologia), as noções de morfema e gramema, a tricotomia língua / fala / norma são categorias linguísticas extremamente férteis, todas decorrentes do pensamento de Saussure e hoje definitivamente incorporadas às ciências da linguagem.
______________________________________________
Fontes:


Arquivo Cultura de Travesseiro

O Filho Eterno - Cristóvão Tezza
A Teoria da Comunicação
A Língua do Brasil Amanhã e Outros Mistérios
Subjetividade da Fala - Benveniste
A Linguagem das Placas
Blogs em Sala de Aula
O Dinamismo Lexical: O Dizer Nosso de Cada Dia
Sobre o Ensino de Português na Escola - Sírio Possenti
"Estrangeirismos: Desejos e Ameaças" - Carlos Alberto Faraco
Resumo: Poesia Não é Difícil - Introdução à Análise de Texto Poético - Carlos Felipe Moisés
Oralidade e Letramento - Luiz Antônio Marcuschi
Gêneros Textuais
A Função da Escola
Educação como Redenção da Sociedade
Educação como Reprodução da Sociedade
Educação como Transformação da Sociedade

Nenhum comentário:

Postar um comentário

PARTICIPE! COMENTE ESTE POST...